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Nem na mata se encontram histórias assim

“Além daquele, há mais furos”

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O dezanove.pt já disse, constantemente repete, insiste e eu também insisto: a homofobia ainda existe em Portugal, mas acrescento uma coisa. Pior está.

Eu sou da Madeira. Eu vi, e vejo, a evolução social a nível de aceitação de pessoas LGBTIQ+ nos últimos dez anos, e muito feliz fico com ela. Mas, minha teoria, o estado da sociedade, o seu progresso, o seu desenvolvimento, é um pêndulo numa corrente que anda para a frente sempre, mas o pêndulo também pesa. Quando a força a andar para a frente mais rápido, nasce a abertura de mente, novas ideias, o progresso cai e promete ficar, e vamos avançando quiçá até para outro sistema económico que, na minha opinião, já vem em atraso, mas corre o pêndulo e, sem ninguém notar, está voltando para o outro lado. Chegam os ‘Chega’s, os Trumpistas, os Bolsonaristas, os que acreditam nas promessas vazias de voltar-se aos tempos em que estavam mais altos que o resto, e de repente, sem nos apercebermos, o fascismo é quase natural e a sociedade está fracturada entre o de sempre, a promessa do que veio antes e o sonho longínquo de um progresso sustentável. E quem tem vindo a ganhar ultimamente, para onde vai o pêndulo, é para onde estão os que sentem saudades dos tempos que não viveram de Hitler e Salazar. Talvez tenham razão, talvez se salvassem… mas esquecem-se que muitos levaram por tabela, arianos ou patriotas.

O que aconteceu com Mário de Carvalho nunca deixou de acontecer, entretanto das três vezes com ele, com tantos outros, e de tantas formas. Gisberta não é a única que o país matou. E digo país porque, tal como uma equipa, somos apenas tão fortes quanto o nosso pior jogador. Neste caso, o jogador é um bloco de voto, e um que pesa, que ficou em segundo lugar, e insiste em ficar em primeiro. Mas esse bloco não nasceu agora.

Pneu Riostylist.jpg

Pneu do carro do Mário de Carvalho (RioStylist) e bilhete encontrado no veículo esta semana

 

Eu recordo-me da controvérsia e ameaças e piadas sensaboronas aquando a mera ideia de existir um Pride na Madeira foi levantada. "Barcos de turistas comunistas extremistas homossexuais pedófilos violadores e pederastas recrutadores de adolescentes com VIH e Sida" pronta para ser liberada na Ilha em massa foi apenas uma das teorias levantadas em posts - e apoiadas nos comentários! Não esperava menos de certa gente, mas o apoio, esse sim, o apoio não esperava. E lá vamos, de semana a semana, a levar com chips em vacinas, porque não bastava "causarem" autismo, e máscaras que fazem mal a todos porque respiram o que expiram, e o lobby trans pedindo por demais, o gay nem se fala, o LGBTIQ+ já nem importa porque ninguém sabe o que são as letras por isso fundem com o primeiro, e por aí vai o mundo, em crise, querendo se apoiar em quem promete respostas aos seus problemas que solucionam apenas arder a Terra mais rapidamente, mas pelo menos sabemos nós que são mentiras, e não, ninguém quer de volta campos de concentração ou emigração de “quem cá não se iria safar”, nem prometem morte a ninguém, extermínio de nada, valorizam todos, da mais mulher ao mais cigano (no nosso caso) - nada disso é real. Mas recordo-me do pêndulo. E cada dia dá mais provas de estar a chegar ao outro lado. A esse lado. O que não existe e ninguém quer, n’é? Tirando aqueles… Vá lá que não temos capitólio para invadir e não há costume de envenenar oponentes por enquanto.

Além daquele pneu furado, e daquelas três vezes, àquela singular pessoa, peço, sem lhe tirarem foco, que se lembrem que tantos mais furos e tantas mais vezes, todos os dias, existem actos que prejudicam comunidades marginalizadas, em que quando um sofre, sofrem todos, porque são comunidades que se revêm em si mesmos, vidas negras importam. Além daquele, há mais furos. É preciso estar alerta e deixarmos de pensar que, como afugentaram os jovens do país, com políticas e vénias a turistas, os que ficaram, os que ainda não se fartaram, que não se deixem cair na insignificância onde vos tentam colocar. Há velhos de 30 anos e para cima que estão a tentar segurar o pêndulo para ele não bater de repente. Com vocês, talvez ele volte a andar para o lado certo.

Nós aprendemos história porque, supostamente, ensina-nos a não a repetir. Assim diz o ditado e justificam os currículos. Mas nunca aprendemos, nessas aulas, que a história só não se repete apenas com o mesmo contexto, porque, como modas, passadas umas décadas, estamos sempre de novo em redor de queimar bruxas à fogueira com calças à boca-de-sino em um print floral. A mesma história. Outro contexto. E não. Quem precisa de aprender estas lições de Gisbertas e Mários de Carvalho nunca as vai aprender enquanto não calhar na pele deles, e, se os dermos licença, quando acabar de mexer connosco e com os nossos, só então vão perceber que nem a eles passa ao lado. “Primeiro vieram pelos pneus, e eu, como ando a pé, não disse nada.”

Ao Mário digo para que chegue a todos: lamento. O pior de nós será sempre mais alto que o melhor de nós. A nossa mente está programada para reter e espalhar ódio e separação. Assim o quis, segundo consta, a evolução. Ninguém é imune. Dos nossos votam conta nós. Quem sabe, sequer, em quem sequer vota?

Mas exijo-vos que tenham força. Não podemos assumir derrota, deitem até fora qualquer bandeira branca! Quando sabemos o que é certo, e sabemos para onde deve ir o pêndulo, devemos nos educar e nos unir para o forçar a permanecer nessa trajectória. A corrente continua sempre, a andar para a frente, o mecanismo não tem botão de retorno. Mas quando o pêndulo cai para trás, perdemos um ou mais passos. E temos de andar de novo. Se for preciso, é o que faremos. Nunca foi de nós esconder o cravo vermelho. Mas acredito que, com mãos suficientes, podemos até não perder caminho.

 

Com muito amor, alguém que não anda a pé.

Summy Luís, activista

 

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