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As histórias de Pedro Dias no Trumps

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Faleceu Pedro Dias, proprietário da discoteca Trumps, em Lisboa. O velório decorre no dia 3 de Janeiro, na Basílica da Estrela, das 10h às 15h.

“Fecha-se o ano de 2020 com a triste notícia do falecimento de dr. Pedro Dias. Sócio do Trumps há mais de duas décadas, era dono de uma mente genial e deixa no seu legado a marca Trumps para toda a comunidade LGBTI. Sempre amigo e companheiro, tocou o coração de muitos e será sempre recordado por toda a família Trumps com muito amor. Que 2021 seja tudo o que o dr. Pedro Dias sonhou para o Trumps”, refere a nota publicada na página do Trumps no Facebook. Pedro Dias deu a cara, em 2013, pela campanha Tudo Vai Melhorar (na foto) e escreveu um texto para o dezanove.pt, a propósito do Massacre de Orlando, em 2016. 

No livro “Histórias da Noite Gay de Lisboa”, de Rui Oliveira Marques, são contados vários episódios que dão a conhecer a relação de Pedro Dias com a icónica e histórica discoteca. Com autorização do autor, publicamos de seguida alguns excertos do livro, editado em 2017. Os entretítulos são da responsabilidade do dezanove.pt.

 

A primeira vez no Trumps

(…) Nessa noite de 1 de Abril de 1985 em que entrou pela primeira vez no Trumps, Pedro Dias deparou‐se com várias pessoas das suas relações: Rosa Maria, que tinha sido esteticista da sua ex‐mulher no Ayer, o director financeiro de uma empresa onde tinha trabalhado e um antigo aluno.

«Vi imensas caras conhecidas e um ambiente perfeitamente normal. Lembro‐me de ver dois homens, discretamente, de mão dada. Claro que havia ternura, gestos de carinho, troca de olhares, conversas mais chegadas do que o que seria comum numa discoteca hétero. O ambiente não tinha nada de anormal, a não ser haver mais homens que mulheres. Havia uma tolerância muito bem gerida». Foi nessa noite que Pedro Dias conheceu o seu primeiro namorado. «Era a primeira vez que ele ia ao Trumps e era a primeira vez que tinha alguma coisa com outro homem. Só nos conhecemos às quatro da manhã, quando a Rosa Maria acendeu as luzes porque ia fechar. Antes tínhamos trocado olhares. Ele não tinha estado a beber. Só tinha pago a entrada e não tinha dinheiro para mais nada – era óbvio. De vez em quando dava uns passinhos de dança. À saída, tinham‐me oferecido um copo e, quando passei por ele, ofereci‐o», relembra. (...)

Quando compra o Trumps

Para Pedro Dias, que detinha uma empresa que se dedicava apenas a comprar e vender empresas, este seria apenas mais um negócio. Chegava a adquirir empresas de manhã para vendê‐las à tarde. A área de actuação do Trumps e as margens que proporcionava estavam longe da apetência de outros negócios. «Depois de tanto me chatearem fiz uma oferta impossível, muito abaixo da avaliação mais baixa. Para minha surpresa aceitaram. Fiz o negócio com a Rosa Maria. Nesse dia fui ter com o Artur e disse‐lhe que tinha essa oferta e alertei‐o de que ele era tonto se a não quisesse. Era de borla. Aí ele respondeu: “Não dou um tostão a essa senhora”. Dias depois disse‐me que tinha mudado de ideias. Já era tarde. No meu mundo quando faço uma oferta, não volto atrás.» O negócio entre Pedro Dias e Rosa Maria ficou selado em Maio de 1995, ficando então o gestor com uma quota de quarenta por cento.

Após a aquisição, Pedro Dias passa três meses a navegar à vela por Ibiza, Maiorca e Formentera. O empresário estava numa fase de mudança de vida depois de vender as empresas financeiras que possuía em vários pontos da capital, da Baixa até às Amoreiras. «O Trumps para mim não tinha expressão, não significava nada. Tinha vendido três imobiliárias a uma empresa francesa, tinha vendido as empresas financeiras ao grupo Mello, que integraram‐nas no Banco Mello. Curiosamente hoje está lá uma empresa do grupo Mello, na rua do Monte Olivete, entre o Trumps e o Bric, num palacete de esquina ao lado do British Council. Era aí a sede do meu grupo». (...)

A renovação da discoteca

A noite de Carnaval de 1996 significou a despedida do velho Trumps. Após a entrada de Pedro Dias como sócio, o espaço iria sofrer uma grande alteração. Não se tratava apenas da mudança da gestão e da equipa. A discoteca iria encerrar para obras para ficar com o dobro do tamanho. Um plano que, por ser demasiado ambicioso para uma discoteca gay em Portugal, tinha sido sucessivamente adiado. «O Trumps antes das obras correspondia apenas à parte da esquerda do que é hoje. Naquilo que é hoje a pista de house havia vários bares, mesas e cadeiras. Tinha pouco espaço para dançar. Com 200 pessoas, o Trumps estava ao barrote. O porteiro, o Sr. Luís, tinha ordens do Artur e da Rosa Maria para ser muito criterioso em relação a quem deixava entrar. A entrada custava 500 escudos e havia clientes que à saída davam mil escudos de gorjeta ao Sr. Luís para que o porteiro se lembrasse deles e da próxima vez não lhes cobrasse entrada porque isso dava estatuto. Era um clube elitista, pequeno, com muito boa música e um excelente show de travesti. Havia dois shows em Lisboa, o do Trumps e do Finalmente. O do Trumps era, de longe, o melhor. Além disso, muita gente ia só para ver a Rosa Maria, que tinha um particular gosto para se vestir e tinha um guarda roupa fabuloso. Era uma imagem de marca do Trumps», descreve Pedro Dias. Esses tempos iam chegar ao fim. (…)

Na noite de reabertura do Trumps, na quinta‐feira santa, Ruth Bryden iria estrear um espectáculo. Nessa tarde deveria haver um ensaio de luzes e som, mas Ruth Bryden não deu sinal de vida. Nesse mesmo dia iria subir ao palco do Finalmente. «Literalmente três dias antes de o Trumps reabrir ela foi falar comigo, a pedir desculpa, mas que tinha falado com o Armando e ia voltar para o Finalmente. Ao ver o tamanho do novo Trumps assustou‐se, disse‐me ela antes de morrer. Antes da inauguração ensaiou no Trumps já com um director artístico que tinha outra exigência. Já não havia aquilo de uma traveca entrar, fazer playback e ir ao camarim mudar de roupa ou de estarem todas no palco a fazer cada uma o que lhe apetecia. Isso tinha acabado comigo, era muito amador», justifica Pedro Dias. (...)

Os espectáculos

Carlos Mendonça era desde 1990 figurinista e ensaiador da Marcha de Alfama. Conseguiria 13 primeiros lugares em 20 anos para as Marchas de Alfama e do Alto de Pina. O primeiro gerente do Trumps viria a protagonizar em 2013 uma denúncia de homofobia por parte de um padre, por se ter recusado rezar a missa de corpo presente do companheiro com quem tinha casado dois anos antes. A cerimónia fúnebre seria presidida por outro padre. Voltemos a 1996. «Não o conhecia bem, mas sabia que estava ligado à produção de televisão, de espectáculos no Parque Mayer e que era o homem das Marchas de Lisboa. Pedi‐lhe um show porque sabia que era capaz de montar um espectáculo bem feito. Fez em menos de dois meses a “Chuva de Frascos”, com actores superconhecidos como o Paulo Vasco, que era a figura principal, a Deborah Kristal (Fernando Santos) ou a Noémia Costa. Era uma mini‐revista cómica», conta Pedro Dias. O público recebeu bem a mudança de formato de espectáculo e Carlos Mendonça assegurou, a seguir, a produção de «Bichinha Gata».

Em 1997 entra Wanda Stuart. «A Wanda Stuart dessa altura e a de hoje têm apenas em comum a cor de cabelo e a voz. A Wanda Stuart era uma boémia e amiga do Xana, do José Carlos, que era frequentador habitual. Sem que ninguém lhe pedisse, a Wanda ia fazer vocalices para a cabine de som nos dias em que não havia show», prossegue Pedro Dias. (…)

Depois de Pedro Dias assumir o controlo total do Trumps em 2006, começa a envolver‐se no quotidiano da discoteca. Constata que os espectáculos, marcados para as duas horas da manhã, nunca começavam a horas. Ao contrário do café ao lado, a discoteca estava praticamente vazia. «Demorei duas semanas a perceber por que os clientes estavam n’ Os Balões, porque o espectáculo era tão mau, que os clientes ficavam a fazer horas porque não estavam para levar com aquilo. Acabei logo com aquele espectáculo. É aí que aparecem o João Labrincha e o Jorge Carvalho, a oferecerem um grupo de artistas que se chamava Body and Soul. Era só com bailarinos e não havia voz. Um amigo conhecia a Paula Sá e disse‐me que ela tinha uma voz fantástica e que era giro pô‐la no espectáculo. Como o Labrincha trabalhava com ela no Parque Mayer foi fácil juntá‐los». A 22 de Dezembro de 2006 estreava então «Nobody is Perfect». (…)

Seguiu‐se em Fevereiro de 2007 o espectáculo «Cabaret». «Foi o primeiro grande espectáculo que se fez nesta nova fase. Foi uma coisa montada pelo Joca sem meios, micro‐ fones como deve ser, nem amplificadores ou projectores. Mesmo assim, foi magnífico graças ao talento deles. Foi o primeiro espectáculo que me fez voltar a apaixonar pelos espectáculos do Trumps», prossegue Pedro Dias.

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O ano de 2007 seria fulcral na definição dos espectáculos musicais dos anos seguintes, com uma duração de 30 a 40 minutos. Vanessa Silva, que tinha já um percurso sólido a participar em talent shows, como a Academia das Estrelas (TVI) onde ficou em terceiro lugar, e em vários espectáculos de teatro, substitui Paula Sá.

A par da dança, Marco Mercier avança com o doutoramento em Biossystems Engineering, no âmbito do programa MIT‐Portugal, que o leva a andar entre Lisboa, Coimbra e Braga. «Tínhamos combinado que o Joca enviava‐me os vídeos com as coreografias. Estávamos a preparar o espectáculo “Mamma Mania”, que o Pedro Dias tinha encomendado ao Joca logo depois de o filme estrear. (...)

Decorreu o «Fade In» (2012), em jeito de musical, e o «Oops» (2012), dedicado a Britney Spears, que é o último espectáculo de Mercier como bailarino, depois fica «apenas» com a coreografia. Pedro Dias já o andava a encaminhar para ser director‐geral do Trumps. «Estava‐me sempre a lembrar: “Tens de sair dos espectáculos. Para seres um bom coreógrafo tens de estar fora dos espectáculos”. E isso causava‐me uma mágoa enorme. Porque efectivamente o que me ligou ao Trumps foram os espectáculos», conta Marco Mercier. (...)

Convite a Conchita

«Quando a Conchita ganhou a Eurovisão fiquei impressionado com a força anímica da interpretação da canção, não dando grande atenção à letra. No dia seguinte fui ver outra vez a actuação e percebi a letra. Nesse mesmo dia tentei saber quem era o agente dela para a contratar. Fui pressionando até que recebi uma resposta positiva da Regine, a assistente pessoal dela, que estava admirada com a minha insistência. Era uma rotina que tinha, todos os dias enviava um e‐mail, ao ponto de ela comentar que eu era o biggest pain in the ass she had ever known», conta Pedro Dias, proprietário do Trumps.

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A performance de Conchita em Lisboa acabou por acontecer a 22 de Agosto de 2015, no Gossip Club (Alcântara), um espaço que permitia acolher 600 pessoas. O Trumps ficou reservado para um encontro com fãs e para as entrevistas com a imprensa. A vinda da artista despertou muita atenção, ao ponto de o então director do jornal Sol, José António Saraiva ter escrito um artigo sobre «a figura grotesca da mulher com barba», reflectindo sobre a sociedade contemporânea onde «tudo é aceitável: mulheres com barba, legalização das drogas, casamento entre pessoas do mesmo sexo, músicas com apelos à violência, insultos ao Presidente da República, eu sei lá». (...)

O legado do Trumps

Tantos anos depois, as pessoas ainda têm receio de ir ao Trumps por ser uma casa catalogada com o público gay. «É evidente. Há figuras públicas que têm medo. Há pessoas que telefonam ou enviam mensagens a perguntar se é seguro ir, se há fotógrafos, se há filmagens, se está lá alguém conhecido. Há gente que não ousa pôr lá os pés. Os álbuns do Facebook das nossas festas têm à volta de cem fotografias, mas ao longo da semana o número vai diminuindo, porque as pessoas pedem para retirar algumas fotos. Mesmo pessoas que nem se percebe na fotografia que são elas. Ainda há quem pergunte no Facebook se as mulheres ou não‐gays podem entrar», descreve Pedro Dias. «Mesmo assim, num Sábado forte temos mil pessoas. É o Terreiro do Paço do mundo gay. Às vezes é usado pelas pessoas para admitiriam a sua homossexualidade dizerem que vão ao Trumps, como se ir ao Trumps as tornasse homossexuais», prossegue. Outras vezes, são as revistas cor‐de‐rosa que fazem títulos espalhafatosos sobre figuras públicas que lá trabalharam, como aconteceu com a actriz Mariana Pacheco. (…)

A função de gueto gay do Príncipe Real, de refúgio e de território de expressão daqueles que se reprimiam e eram invisíveis fora dali, parece ser já passado. A geração LGBT mais jovem, que já não assistiu à discriminação e à homofobia declaradas, estranha até os bares à porta fechada e o secretismo das relações. «Na fase inicial, o Trumps era um clube de gente elitista, na casa dos 30 anos, ligados às artes e à moda. Hoje, de clube não tem rigorosamente nada. É um local grande, com grupos variados e com raças, culturas, e níveis sócio‐económicos e culturais totalmente díspares e que se constituem, agregam e se encontram lá dentro. O Trumps de dia, só com as luzes de limpeza e sem música, é um mausoléu. É feio. Às vezes estou lá sozinho à espera de alguém e fico a pensar. Como é possível? Uma cave horrorosa a facturar há 36 anos», conclui Pedro Dias.

 

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