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Discurso por Márcia Lima Soares, a 1 de Junho de 2021, em Lisboa

 

Em primeiro lugar, tal como cada um de vós, que poderia estar em casa a ver uma série, a estudar ou a lavar a loiça, estou aqui, hoje, sentindo uma enorme satisfação por poder fazer parte deste momento de união, de luta, de empatia e que serve de aquecimento para a Marcha LGBTQI+, que terá lugar no próximo dia 19 de Junho

Já houve momentos em que nos sentimos sozinhos/as, como uma menina, numa qualquer escola portuguesa, que esteja a passar por um momento de transição, assumindo-se como transgénero e atravessando quase todos os intervalos sozinha. Também eu já me senti abandonada, mesmo em adulta, sem saber a quem recorrer, quando toda a gente à minha volta me dizia que amar uma mulher era errado e pecaminoso. As duas jovens que foram interpelados por estarem a trocar alguns beijinhos neste parque, há uma semana atrás, não estavam a ser ofensivas, e, de acordo com diversas testemunhas, não estavam a ser indiscretas nem a "exagerar" nas demonstrações de afecto. Usando de alguma empatia, imagino que se tenham sentido extremamente desconfortáveis, quando, julgo eu, só procuravam alguns minutos para relaxar e aproveitar o sol de Lisboa. Talvez nem sejam activistas e dispensam o tipo de atenção mediática que tiveram, pois somos livres de organizar manifestações, assim como de escolher se participamos nelas ou não, preferindo, por vezes, estar longe de holofotes e microfones. 

Hoje, estamos aqui por elas e por tod@s nós, cada um transportando o seu próprio percurso numa mala de viagem metafórica. Após tantos anos de luta pela Procriação Medicamente Assistida, numa luta pessoal que durou mais de seis anos, tenho a minha filha aqui presente. Depois de tantos avanços e recuos, ainda com muito por fazer, pois faltam doações de gâmetas no Serviço Nacional de Saúde, levando a que centenas de mulheres continuem a aguardar numa longa lista de espera, a Laura surge como uma referência para tantas pessoas que ainda não perderam a esperança de vir a ter filh@s, incluindo os homens que, para já, podem apenas recorrer à adopção (e sabemos o quão morosos são esses processos).

Por estes motivos e somando todas as lutas, se algum dia, por acaso, eu estiver com a minha mulher num parque e trocar um ou outro beijinho, se alguém nos questionar: "Vocês não têm vergonha? Não vêem que estão aqui crianças?", responderemos: 

  Claro que vemos, uma delas é a nossa filha.

 

Vê a foto da Márcia e da sua família no dia do Beijaço aqui.

 

Estamos aqui, sim, somos livres de estar e de expressar o nosso amor. A lei reconhece-nos e protege-nos, apesar de, muitas vezes, nos sentirmos invisíveis. Sinto um orgulho e uma satisfação enormes por estar aqui e por poder partilhar esta tarde convosco. Ainda bem que conseguimos vir e que trouxemos a nossa filha connosco, neste seu primeiro dia da criança, pois o melhor presente que lhe podemos dar, é a liberdade.

 

Márcia Lima Soares

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