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Cartas ao dia do Autor Português

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Instituído há 35 anos, pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e por iniciativa do Maestro Nóbrega e Sousa, o Dia do Autor Português celebra-se enquanto acto de lembrança de artistas, escritores, poetas, ensaístas ou tradutores que fazem da língua portuguesa mais que um sistema de comunicação, de um estilo de escrita, discurso ou expressão característica de alguém, mais do que narrativas, lirismos ou dramaturgias, de poesias ou crónicas, contos e tragédias, mas como forma de partilha de emoções, sonhos, experiências que enriquecem a nossa cultura e aumenta os nossos conhecimentos.

 

O objectivo deste dia é homenagear aqueles que pelo seu trabalho contribuíram para que a língua lusófona se mantivesse viva e se revitalizasse no contacto com os livros e prazer da leitura. É um dia de especial lembrança aos que através do dom da escrita nos ajudam a tornarmo-nos maiores.

Este dia é também um marco na celebração da liberdade de expressão e criação artística. É recordar a liberdade que subjaz o prazer da leitura e desejo de escrever que durante muito tempo foi privilégio de uma minoria. A censura fez parte do mundo literário em Portugal durante grande parte da história da produção de conhecimento impresso. Fosse pela clerical força de um Index Prohibitorum, fosse por um lápis azul descritivo de uma política de “bons costumes”, que confinavam a produção e partilha de ideais avessos a dogmas religiosos ou ideologias políticas vanguardistas.

Evocar figuras como Luís Vaz de Camões, Padre António Vieira, Eça de Queirós, José Saramago, Almada Negreiros, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, é não só evocar a sua imortalidade e a de determinado género literário mas relembrar a originalidade e espírito visionário do autor, que em diferentes registos conseguiu esculpir no papel a realidade de um país que apesar de moldado às circunstâncias do tempo não mais se fará esquecido pelas gerações de advir.

Enquanto o reconhecimento do sucesso de certas obras mitifica determinados escritores enquanto heróis da nação outros por se atreverem a abrir novos horizontes através do denunciar da escrita, viram-se ser calcados pela força de uma repressão que lhes roubara não só o sujeito poético, mas toda uma identidade criativa.

A atitude literária tem um poder fantástico na construção intelectual do indivíduo e na promoção da reflexão colectiva. Através deste poder foram muitos os que através da sua linguagem tentaram moralizar a sociedade rejeitando preconceitos e transgredindo a invisibilidade de temas cobertos de um puritanismo conservadorista. Muitos deles foram submetidos à intimidade das gavetas por mostrarem uma realidade demasiado crua para os estômagos indigestos de uma população ignóbil à novidade. Considerados “livros torpes” ou de “corrupção literária”, foram muitos os que através da sua arte experienciaram a força da opressão no potencial da sua emancipação.

Diante um universo de autores que sentiram amordaçados pelas forças conservadoras destaco três que na tentativa de dar visibilidade ao tema da homossexualidade em Portugal, foram remetidos para um silenciamento absoluto e apagamento ainda nos dias de hoje. Falo de António Botto e a sua obra Canções (1922); Judith Teixeira e a Decadência (1922); e Raul Leal e a sua Sodoma Divinizada (1923), todos eles autores de carácter homossexual que viram as suas obras ser aprendidas em 1923, pela tentativa de quebrar um pudor cristalizado na sociedade portuguesa da época. Conhecidos por “poetas de Sodoma”, homossexuais e modernistas em defesa do pluralismo e de novos padrões de sociabilidade assumiram através do lesboerotismo e do homoerotismo, uma corrente libertária em Portugal que queria dar visibilidade à homossexualidade e contrariar a moral burguesa sobre a família.[1]

A sexualidade era o seu tema de luta, interessava-lhes a admissão pública da homossexualidade como modo de vida da sociedade, a criação de um movimento inexistente no Portugal da época. Na verdade, aquilo que causaram foi a eclosão de um grande escândalo no país. Os seus livros rapidamente tornados best sellers nas demais livrarias portuguesas, chegando a países estrangeiros como Inglaterra e França, não tardariam a ser censurados pela força do regime e as suas carreiras a serem destruídas pela condenação do exílio por força da corrupção moral que as suas obras representavam.

A homossexualidade em Portugal sendo criminalizada até 1982 era submetida para um silenciamento e repressão que não escapava aos meios académicos e intelectuais. Na literatura, a homossexualidade exprimia-se de forma cifrada e encriptada, de forma a que quem se aventurasse a peregrinar sobre tais temas não sofresse a mesma condenação e apagamento que os poetas de Sodoma sentiram. Facilmente, os escritores homossexuais seriam vistos como pederastas, como foram também considerados Júlio Dantas, João Chagas e Manuel Teixeira Gomes, este último, sétimo presidente da República que pela sua escrita homoerótica, Cartas Sem Moral Nenhuma (1903), foi obrigado a abdicar o cargo que ocupava.

O modernismo português mostrava uma força intelectual que se queria libertar das amarras do conservadorismo atávico da época. O próprio Fernando Pessoa teria não só apoiado António Botto (1923) pela poética libertária que assumia o seu trabalho como também produz Antimos (1918), poema declaradamente erótico e homossexual que mostra uma espécie de estoicismo do sentir. No entanto, a força da literatura homoerótica apenas viria a ganhar expressão na geração surrealista e mais tarde com a geração de Abril, em figuras como Mário Cesariny, Al Berto, Natália Correia e Ary dos Santos, intelectuais de esquerda com uma visão libertária da vida convictos na desconstrução das relações de género e na visibilidade da identidade Gay em Portugal.

Foi sobretudo no período de pós-guerra e de surgimento de movimentações sociais e de libertação, entre as décadas de 1960 e 1970, que a homossexualidade viria a deixar de ser alvo constante de investidas por parte da polícia política. As Novas Cartas Portuguesas, obra conduzida por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, as “três Marias”, não podia deixar de ser anunciada enquanto marco do empoderamento feminino. Obra marcada por uma forte posição política, criticando a representação social da mulher e da sua subserviência ao homem, tivera um grande impacto na sociedade portuguesa e com projecção internacional, sendo rapidamente publicado em diferentes línguas, mas recolhido e destruído pela censura logo após a sua publicação, levantando um processo judicial às autoras por uma obra de conteúdo “pornográfico” que “atentava a moral pública”.[2] Um caso que, por sucessivos adiamentos, só não viria a ter lugar por força da Revolução de Abril de 1974.

Estes autores e autoras que marcaram a emancipação das artes em Portugal, tal como tantos outros que poderiam aqui ser enunciados por marcarem o campo das Letras no país, por terem o dom e rebeldia de nas suas palavras soltarem a revolução do papel para as ruas, pelo contributo na construção de uma identidade colectiva, da luta pelo caminho da liberdade e igualdade em gerações futuras, merecem ser não só celebrados mas também legados às gerações de advir. Na escola ou em casa, devemos lembrar Botto, Teixeira ou Leal que, considerados como imorais pelo seu sentir, foram remetidos a um silêncio que pesa na cultura literária portuguesa, tal como ainda hoje muitos são os que se calam com medo da diferença.

Quem também não se deixou calar, tampouco se calará é, Maria Velho da Costa, que marcara gerações pelo uso da sua palavra e denúncia da violência que os “bons costumes” incutiam à feminilidade portuguesa na época. Através de Cartas, de Contos e Dramaturgias, Maria, eterniza a sua voz além-vida através de uma experiência literária que analisa problemas sociais de uma dimensão actualíssima. Esta Maria, sucumbira aos 81 anos no passado dia 24 de Maio, os poetas de Sodoma há já mais de 50 anos, quaisquer tempo que passe não os obliteram do mundo real pela homenagem prestada na partilha e leitura das suas obras. Na denúncia do medo e da violência contra humana.

 

Daniel Santos Morais

 

Bibliografia

Almeida, São José, Homossexuais no Estado Novo, Lisboa, Sextante Editora, Maio de 2010.

 

Webgrafia

Novas Cartas Portuguesas: 40 anos depois http://novascartasnovas.com/historia.html  [22 de Maio de 2020]

 

[1] Almeida, São José, Homossexuais no Estado Novo, Lisboa, Sextante Editora, Maio de 2010.

[2] Novas Cartas Portuguesas: 40 anos depois http://novascartasnovas.com/historia.html

 

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