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Celebrar a 25ª edição do Queer Lisboa à conversa com João Ferreira

João Ferreira - Foto: Charles Pietri

João Ferreira - Foto: Charles Pietri

Entre os dias 17 e 25 de Setembro, o festival de cinema Queer Lisboa vai celebrar a 25ª edição na capital portuguesa. O festival passa depois pela cidade do Porto entre os dias 16 a 20 de Outubro (Queer Porto 7).

 

Em modo de retrospectiva destes 25 anos que passaram, o dezanove.pt esteve à conversa com o director artístico João Ferreira, que nos deu a conhecer um pouco do percurso do festival e do que nos espera esta edição, marcada pelo trabalho de Gus Van Sant.

 

dezanove: Qual é a carga simbólica deste quarto de século para o Queer Lisboa?

João Ferreira: É verdade que estas datas “redondas” nos fazem sempre pensar um pouco no passado e futuro do festival. Se lhe podemos conferir um simbolismo, julgo que será um de resistência, ou mesmo de sobrevivência, olhando para o nosso passado. Faz-me pensar também que somos, hoje, o festival de cinema mais antigo em Lisboa e acredito que isto tem uma carga simbólica grande para a nossa comunidade e para a própria cidade de Lisboa. Por outro lado, cumprir um quarto de século não deixa de ser uma enorme responsabilidade. Pensar que atravessámos alguns dos momentos mais importantes da nossa história do activismo LGBTQI+ em Portugal, foram 25 anos de tantas conquistas. E acredito que esse sentido de responsabilidade está ligado a isso também: sabemos hoje que há muito trabalho ainda por fazer e que estas conquistas nem sempre são “adquiridas”. Vivemos ainda muitas ameaças políticas e sociais aos nossos direitos e liberdades. 

 

Somos, hoje, o festival de cinema mais antigo em Lisboa e acredito que isto tem uma carga simbólica grande para a nossa comunidade e para a própria cidade de Lisboa.


Que retrospectiva podemos fazer destes 25 anos do festival? Como cresceu o cinema queer em paralelo com o festival?

Quando o festival nasce, em 1997, vivíamos um período particularmente fértil naquilo que foi a produção, consolidação e afirmação do cinema queer. Começa, de certo modo, o “rescaldo” da epidemia do VIH/sida, com a esperança dada pelos novos fármacos, e isso reflecte-se na produção cinematográfica queer. Por um lado, nas suas primeiras edições, o festival teve a necessidade de olhar para o passado, de ver como diversas expressões queer se plasmaram no cinema, de forma mais ou menos encoberta. Quisemos mostrar a importância do cinema experimental ou mesmo da pornografia nos anos 60 e 70 na representação de imagens positivas de pessoas queer, e, por fim, de começar a dar a ver um cinema mais comercial gay e lésbico, a par de um outro, mais subversivo, que começa a nascer na década de 80. E este trabalho de retrospectiva manteve-se sempre no festival até hoje, pois acredito que ele é importante, não apenas para termos uma noção da nossa história, mas com o intuito também de colocar estas obras – algumas já com o estatuto de clássicas -, em diálogo com o cinema que se faz hoje. De resto, o festival é inevitavelmente um espelho da evolução do cinema queer, embora com a responsabilidade de, sempre que achamos necessário, lhe oferecer uma leitura crítica. 

O trabalho de retrospectiva manteve-se sempre no festival até hoje, pois acredito que ele é importante, não apenas para termos uma noção da nossa história, mas com o intuito também de colocar estas obras em diálogo com o cinema que se faz hoje.


Qual a importância de trazer um nome como Gus Van Sant nesta data?

Esta foi uma daquelas felizes coincidências para celebrar o nosso 25º aniversário, a vinda do Gus Van Sant a Lisboa para ensaiar e apresentar aquela que será a sua estreia enquanto encenador, o “Andy”. Nesse sentido, fomos convidados a organizar uma retrospectiva sua na Cinemateca Portuguesa.

Mala Noche

A importância de termos o Gus Van Sant no festival é a de termos a oportunidade única de conhecer um dos cineastas pioneiros do New Queer Cinema e rever a sua obra em cópias de 35mm. Aliás, mais que pioneiro, Van Sant é visto hoje como o precursor do New Queer Cinema quando, em 1985, estreia o "Mala Noche". A importância deste filme é absolutamente central na cultura queer. Se não, vejamos, em 1985, os EUA e o mundo vivem a eclosão da epidemia do VIH/sida, com o massacre e estigma que lhe conhecemos, e uma repercussão particular nas comunidades queer, nas suas vidas, na sua produção cultural. Levou alguns anos para que críticos, espectadores, académicos percebessem o impacto que este singular objecto cinematográfico viria a ter na história do cinema independente e adquirisse o epíteto de obra inaugural do que viria a designar-se por New Queer Cinema. Numa década em que o corpo do sujeito gay é percepcionado como doente e as suas práticas sexuais vítimas de um discurso moralizador, "Mala Noche" é uma ode à vida desse corpo, uma celebração da sua sexualidade, do seu poder dissidente. "Mala Noche" é sobre o prazer sexual, a ausência de culpa, o poder da não-pertença. E foi esta a via do New Queer Cinema a que assistimos nos anos seguintes.

"Numa década em que o corpo do sujeito gay é percepcionado como doente e as suas práticas sexuais vítimas de um discurso moralizador, Mala Noche é uma ode à vida desse corpo, uma celebração da sua sexualidade, do seu poder dissidente."

 


Considerando a marca que Gus Van Sant teve no New Queer Cinema dos anos 90, como se confronta com a cinematografia corrente do realizador, cujo último filme com temática LGBT data de 2008?

Sim, se olharmos para a produção cinematográfica de Van Sant podemos apontar o, aliás, magnífico, "Milk" como o seu último filme explicitamente queer. Mas não devemos esquecer que o cinema é apenas uma das expressões artísticas de Van Sant. Ele é formado em pintura, e trabalha também como fotógrafo, por exemplo. E que nas décadas em que filmou alguns dos seus títulos mais emblemáticos do New Queer Cinema, filmou obras como "Drugstore Cowboy" ou "Gerry", que não sendo narrativas explicitamente queer, são filmes de uma enorme coerência com uma sensibilidade e estética queer que encontramos em filmes como "My Own Private Idaho".

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"My own private Idaho" - Créditos Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.

Julgo que a Van Sant sempre lhe interessou mais um “olhar queer” sobre o mundo, do que propriamente uma preocupação em contar apenas histórias queer. Eu acho que, acima de tudo, interessa-lhe falar, por um lado, sobre o desajustamento e, por outro, sobre a moralidade. E para explorar essa questão, que terreno mais fértil que aquele da adolescência, que marca tanto a sua obra? Em "Elephant", por exemplo, ao realizador não lhe interessa perceber as motivações que levam aqueles miúdos a cometer o massacre. As personagens são aqui, e em obras como "Paranoid Park" ou "Gerry", a incorporação de uma certa dispersão da realidade. E isto é incrivelmente queer.


Que podemos esperar dos ainda inéditos a anunciar da selecção oficial deste ano, nomeadamente a nível de longas-metragens?

Esta edição do Queer Lisboa acontece em pleno segundo ano de pandemia, e a produção cinematográfica – como tantas outras expressões artísticas – sofreram um abalo sem precedentes na nossa história recente. Por isso, não consigo deixar de olhar para os filmes que programámos este ano como actos de resistência. Ou porque foram rodados durante a pandemia, ou porque viram a sua distribuição comprometida durante ano e meio, com as óbvias consequências financeiras que isso acarreta. Há alguns filmes que reflectem a pandemia de forma mais directa, como o "Desaprender a Dormir", de Gustavo Vinagre, ou o "Another Europe", de Sangam Sharma.

Desaprender a dormir

"Desaprender a dormir"

O primeiro, uma ficção que espelha um confinamento não apenas físico, mas mental. O segundo, um diário íntimo na primeira pessoa que nos leva a pensar no que é isto da Europa. Depois temos um conjunto de filmes na secção Queer Focus que vão dar lugar a um conjunto de conversas, organizadas em colaboração com a ILGA Portugal, do qual fazem parte documentários como o "Cured", que, por um lado, mostra-nos aqueles que foram os movimentos pioneiros do activismo nos EUA, a "Mattachine Society e a Daughters of Bilitis", e a sua luta conjunta para retirar a “homossexualidade” da lista de patologias da sociedade de psiquiatria norte-americana. Por outro, a importância que isto teve para a afirmação posterior das sexualidades LGBTQI+. Saúde mental, feminismo, construção de comunidades alternativas, são alguns dos temas que vamos abordar nesta secção, ou aquele das migrações, como nos filmes "Instructions for Survival", de Yana Ugrekhelidze, ou "Silent Voice", de Reka Valerik (este último parte da competição dos documentários).   

Cured

"Cured"

 

Silent Voice.jpg

"Silent Voices"

 

Não consigo deixar de olhar para os filmes que programámos este ano como actos de resistência. Ou porque foram rodados durante a pandemia, ou porque viram a sua distribuição comprometida durante ano e meio, com as óbvias consequências financeiras que isso acarreta.



Quais as perspectivas do irmão mais novo do Queer Lisboa que agora cumpre sete anos de existência no Porto? O que podemos esperar da edição deste ano e o que falta para que este se afirme cada vez mais como um evento de referência queer para o Norte do país?

Depois de uma edição completamente atípica no ano passado, por causa da pandemia, este ano já vamos conseguir recuperar no Porto uma das premissas que fundaram este festival: a de trabalhar com vários espaços da cidade. Assim, a par do Teatro Rivoli, vamos estar na Reitoria da Universidade do Porto, na Faculdade de Belas Artes, no Maus Hábitos e na mala voadora. E vamos também retomar uma programação que inclui uma série de actividades a par do cinema, como masterclasses e performances. Este ano, vamos levar uma parte do programa do Queer Focus de Lisboa para a Reitoria e entre vários convidados, vamos ter a Ana Luísa Amaral para uma conversa com os nossos espectadores, a propósito do documentário "The City Was Ours. Radical Feminism in the Seventies".

The city was ours

"The city was ours"

 

Nas Belas Artes, vamos receber a realizadora alemã, Monika Treut, um dos nomes centrais do que podemos denominar da expressão europeia do Novo Cinema Queer, e nesse sentido vamos revisitar o documentário dela de 1986, o "Gendernauts", que foi um filme central na discussão das questões do género, quer no activismo, quer na academia. E esta exibição vem com uma boa surpresa: este ano no Festival de Berlim, a Monika estreou um novo filme, o "Genderation", onde cerca de 35 anos depois, ela vai ao encontro dos protagonistas do Gendernauts. O Queer Porto acredito que tem vindo aos poucos a encontrar o seu lugar no tecido cultural da cidade. E em 2022 acreditamos que vai ser dado mais um passo importante, quando nos mudarmos para o renovado Cinema Batalha. Acho que os objectivos prioritários neste momento são os de conseguirmos um maior financiamento local para o festival, de forma a atrairmos mais convidados internacionais e expandirmos as actividades paralelas. E deste modo irmos ao encontro dessa ideia de transversalidade que fundou o festival no Porto.   

"[Durante o Queer Porto] vamos ter a Ana Luísa Amaral para uma conversa com os nossos espectadores, a propósito do documentário "The City Was Ours. Radical Feminism in the Seventies". Nas Belas Artes, vamos receber a realizadora alemã, Monika Treut, um dos nomes centrais do que podemos denominar da expressão europeia do Novo Cinema Queer, e nesse sentido vamos revisitar o documentário dela de 1986, o "Gendernauts"

Gendernauts

Gendernauts

 

Os 25 anos de Queer Lisboa trazem consigo também a descentralização de iniciativas pelo país. O que mais nos pode contar sobre isso e onde poderemos ainda encontrar o Queer ao longo do território nacional?

Este é já um projecto antigo e que finalmente este ano vamos conseguir pôr em prática. No passado já tivemos a oportunidade de levar alguns filmes do nosso programa a cidades como Faro, Coimbra, Covilhã, e mesmo ao Porto, antes da criação do Queer Porto. A ideia para esta itinerância é a de fazer circular os filmes da secção Queer Focus de Lisboa e Porto, acompanhados de uma conversa no final sobre as temáticas levantadas por cada filme, sempre com a participação de pessoas da cidade de acolhimento, procurando-se, assim, perceber e reflectir sobre as problemáticas e realidades locais. Os filmes propostos abordam uma diversidade temática ligada ao percurso do activismo LGBTQI+ e ao seu impacto nas diferentes sociedades, um pouco por todo o mundo, e o seu efeito transformador nas mentalidades, na acção política e na própria ciência; ao estigma ainda prevalente sobre o VIH/sida e de como a epidemia transformou as comunidades queer; aos indivíduos transgénero e suas problemáticas pessoais, sociais e clínicas ligadas aos processos de transição; ou o duplo estigma sofrido pelas pessoas com deficiência física ou doença mental. Questões que cruzam muitas outras ligadas às migrações, refugiados, direitos humanos ou relações familiares. Neste momento, temos já a garantia de que levaremos esta itinerância aos Açores, a Ponta Delgada, que era um dos nossos principais objectivos. E estamos já em contacto com algumas outras cidades, como Portalegre ou Viseu, e esperamos acrescentar mais localidades a esta lista.  

 

A ideia para esta itinerância é a de fazer circular os filmes da secção Queer Focus de Lisboa e Porto, acompanhados de uma conversa no final sobre as temáticas levantadas por cada filme, sempre com a participação de pessoas da cidade de acolhimento, procurando-se, assim, perceber e reflectir sobre as problemáticas e realidades locais. 

 

Onde é que o cinema Queer vai estar quando o Queer Lisboa celebrar meio século?

A história já nos ensinou que vivemos em constantes avanços e retrocessos, nomeadamente em termos de direitos e conquistas sociais. Não devemos tomar nada por garantido. Por isso, acredito que daqui a 25 anos vamos ver plasmadas no ecrã muitas das problemáticas com as quais vivemos hoje, ou até com aquelas que vivemos há um quarto de século atrás. Claro que teremos novos contextos, mas esses a história também já nos ensinou que são difíceis de prever. Há depois também a questão das novas tecnologias e de como elas entram no cinema e na experiência de ver cinema. Vamos com certeza assistir a grandes mudanças nesse sentido. Mas acho que o que mais me assusta é que se perca um sentido de comunidade, de experiência partilhada, de assistir a um filme ao lado de outras pessoas numa sala escura. A pandemia mostrou-nos a facilidade com que muita gente criou formas virtuais, não físicas, de se relacionar e de construir comunidades. E eu acredito que uma parte expressiva da formação da nossa identidade pessoal é feita na relação física, directa, com o outro. É nesse “confronto” que nos construímos. E temo que estes últimos dois anos tenham acelerado de algum modo essa “alternativa virtual”, já bem presente na importância desmesurada, de quase sobrevivência pessoal e prova de existência que muitas pessoas dão à sua presença e interacção nas redes. Acho que o grande desafio vai ser este: o de recuperarmos um sentido de comunidade, de partilha, na vida real.   

 

O que mais me assusta é que se perca um sentido de comunidade.

 

Entrevista de Cláudia Castro

 

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