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Colombina Clandestina, um carnaval cheio de Graça, feminista, negre e queer

© Foto Raquel Pimentel

O Grito de Carnaval foi em Alfama, no beco de São Miguel, ali onde há seis anos começou o Bloco da Colombina Clandestina, o bloco de Lisboa, que leva a luta e a festa às ruas, lugares de encontro e resistência. Corpos negres, queer, feministas e antirracistas numa cidade em ambiente pós-colonial. No Panteão gritou-se contra Putin e a sua invasão à Ucrânia, no Coreto da Graça foi a “Luz de Tieta” que iluminou o lançamento do single “Histérica e Louca” de autoria de Heidy, a voz da Colombina, Puta da Silva, a voz da negritude trans e Alexa, palavras do feminismo anti-racista e descolonial. 

Passados dois anos de pandemia voltamos a ter Carnaval. Lisboa passou à frente do Rio de Janeiro, que não pode celebrar devido a um governo autocrata de Bolsonaro. Esse que continua a oprimir o seu povo com as suas políticas genocidas. “Fora Bolsonaro!” Gritos entoados no Beco de São Miguel, ecoando por toda a Alfama. O Grito do Carnaval aconteceu uma semana antes. 

A Colombina Clandestina não teve autorização para circular nas ruas do bairro que a viu nascer. Um Grito de Carnaval solidário com oferendas ao bairro e às suas gentes. No domingo dia 20 de Fevereiro, esquentaram-se as vozes e os corpos para o Carnaval que há muito se desejava. As pessoas estavam felizes, abraços e beijos. E a Bateria Clandestina correspondia com a sua batida entre músicas de axé, samba, funk e marchinhas conhecidas. 

A participação das pessoas é fundamental e os passos no empedrado da escadaria, faziam o sol abrir a espaços. Cerveja, alegria e dança numa festa que também é luta. Luta contra o racismo, a discriminação e por uma Lisboa aberta ao mundo e à diversidade. Luta de todos os dias que ganha vida no Carnaval. 

© Foto Raquel Pimentel

Heidy, a cantora do Bloco Colombina Clandestina destaca que “o Grito foi solidário, feito com muito amor à população de Alfama, que é o nosso território. Fizemos uma recolha de alimentos e materiais de higiene para impulsionar o projecto Alfama Hoje, no qual somos o parceiros de dinamização cultural, liderado pela APPA - Associação do Património e Pessoas de Alfama, com os parceiros Gaia e Adicense, com apoio do apoio BIPZIP. Retribuímos sempre a generosidade que o bairro nos deu nestes anos todos”.

 

Resistir e existir

“Quem mandou matar Marielle Franco?”, uma pergunta que ecoava na minha cabeça à chegada ao Panteão Nacional, lugar da concentração da Colombina Clandestina. “Hoje até os mortos se vão levantar!”, comentava uma das muitas vendedoras da feira da Ladra, lugar de despojos de outrora, discos, postais e objectos com memórias, como aquelas que vão fazendo a cidade de Lisboa. Eva, a porta estandarte do Colombina, colhia sorrisos e abraços. “É um momento de gratidão, poder voltar a estar na rua e fazer parte deste movimento aqui. Porque a rua é um direito de todos e um lugar de liberdade, todo o mundo tem direito de gozar a rua e ninguém nos pode privar disso”, refere. A rua como lugar de existência e resistência. A Bateria Clandestina vai chegando com os seus elementos da percussão e sopros, a caminhada até ao largo da Graça será longa, lenta e audível. 

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E visível, corpes negres e queer que interrogam uma cidade que se pensa branca, no mito dos descobrimentos e que teima em negar as suas responsabilidades históricas. Eva destaca que “a nossa existência aqui já é algo que faz as pessoas nos olharem e nos notarem e pensar sobre o racismo, para além da nossa existência, a nossa resistência, de podermos falar sobre o que sentimos e trazer mais equidade para a vida de todes”. 

Primeiras batucadas, gritos, confetes e purpurinas. Grito geral e na frente da Bateria Clandestina dois cartazes: “We stand with Ukraine” e “Stop Adolf Putin”. Uma guerra provocada pelo fanatismo nacionalista e imperial que Lisboa vai contestar. Eva empunha o estandarte do Bloco e as centenas de pessoas começam a tomar a rua em direção ao Largo da Graça. As marchinhas levam o canto das foliãs e foliões, “dizem que cachaça é água, cachaça não é água não”... com os corpos fantasiados em marcha. Das janelas os assistentes batiam palmas, sorrisos rasgados, temos o Carnaval de volta. 

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Foto Raquel Pimentel

 

Histéricas e Loucas 

Quando a cabeça do Bloco chegou à Graça as vozes já estavam quentes e a luta em força total. Mariama Injai, bloguer e activista negra não esconde a emoção, “acho que é incrível fazermos um statement, os corpos que estão aqui, pessoas negras, pessoas queer, que muitas vezes são invisibilizados. Estar aqui é muito importante para a luta pela diversidade”. Uma diversidade de todos os jeitos, num bloco de migrantes que nos convocam para a cidade que queremos ter e onde seja seguro estar, viver e trabalhar.  “As pessoas sentem-se bem, felizes, seguras, aqui não há lugar para a discriminação. As pessoas sentem-se bem e todos os anos há mais pessoas a juntarem-se nesta luta”, refere Mariama. 

No coreto Heidy canta para a multidão que lhe responde: “Eta, eta eta eta, é a lua é sol é luz de Tieta eta eta!!! Uma foliã registou o momento na sua história no Instagram e o mesmo foi partilhado pelo perfil do cantor brasileiro Caetano Veloso! 

Beatriz, italiana que está com os amigos entra no refrão. Pergunta quem é a Tieta. A personagem do escritor baiano Jorge Amado que revolucionou Santana do Agreste com os seus posicionamentos feministas, lutar pela mudança de mentalidades, agregar, incluir, fazer roda, uma energia mobilizadora que os batuques ajudam a construir. 

O coreto da Graça estava forrado com cartazes com “histérica e louca”. O novo single foi feito por Heidy, do Colombina Clandestina, Puta da Silva e Alexa. Antes da apresentação já estava disponível nas plataformas de música como Spotify. “Vozes jogadas ao alto/ Corpos se levantam do chão/ Braços que tocam no céu/ Evocando a libertação”, abre a canção que lança o mote para dança. 

“Essa música foi uma escrita conjunta de mulheres, eu a Alexa e a Puta da Silva, cada uma sente e pensa sobre o mundo. A Puta veio trazer a mulher negra e trans e eu falo pela luta feminista e somos todas histéricas e loucas”, refere Heidy. A voz da Colombina Clandestina voltou à rua e com a força da luta. “O nosso Carnaval é de Lisboa. Nós fazemos um Carnaval diferente, misto, nós temos muitos migrantes, muitos estrangeiros de todos os lugares, misturados, e trazemos a cultura portuguesa cantada por Delfina, fadista do Bloco, entre músicas populares portuguesas, António Variações, as Doce e outras no nosso repertório”, destaca Heidy vestida com as cores roxas da luta feminista do 8 de março. 

 

Um Carnaval Cheio de Graça

Após o lançamento da música “Histérica e Louca” as pessoas seguiram para a Voz do Operário, para o Baile da Colombina, com presença das parcerias Valsa, que comandou o bar da festa e Matuta, com seus quitutes deliciosos - coxinhas e bolas de queijo. A entrada da bateria do Bloco no salão foi outro momento de grande entusiasmo. “Trabalhadores do mundo uni-vos” sobre a grande sala da Voz, que juntou centenas de pessoas.  “O Carnaval não é festa só, o Carnaval é resistência e luta. A gente fica muito revoltada quando permitem que haja outras festas e o Carnaval não. Nós somos manifestação cultural. Sanatório geral, somos todos operários e o Carnaval é o dia de libertação, de vir para a rua gritar, de vir para a rua se libertar”, reafirma Heidy que agradeceu à multidão inúmeras vezes. 

“O Carnaval não é festa só, o Carnaval é resistência e luta. A gente fica muito revoltada quando permitem que haja outras festas e o Carnaval não. Nós somos manifestação cultural. Sanatório geral, somos todos operários e o Carnaval é o dia de libertação, de vir para a rua gritar, de vir para a rua se libertar”

A música continuou pela noite dentro com os Dj’s Di Cândido aka Didi e Jeff,  que foram levantando a sala várias vezes. Graças ao activista, artista multidisciplinar e curador Didi foi ainda possível criar o “Carnaval Cheio de Graça”, que para além do Bloco Colombina Clandestina, envolveu ainda o Damas e o Valsa numa articulação capaz de devolver o carnaval a Lisboa. “Ocupar a rua e os outros espaços da cidade criam visibilidade, numa festa que é também uma forma de luta pela liberdade de se estar onde se quiser”, refere Didi. 

E como estávamos a precisar. Isto permitiu um fim-de-semana com uma programação musical e artística integrada com diversos colectivos de artistas de Lisboa. Entre eles destacamos o colectivo Voraz, Baile Brabo, a Bee, Lipizzi, artista funk, The Rolê e Sound Preta, uma Dj que circula entre o Porto e Lisboa. “O objectivo era criar diálogo entre estes espaços e uma oportunidade para celebrar a cultura do Carnaval, património afro-brasileiro”, destaca, por fim, Didi. 

 

Texto: André Soares (Jornalista e Antropólogo)

Fotos: Raquel Pimentel

Vídeos: Noé João 

Edição e Revisão de Texto: Andrea Freire (Colombina Clandestina)

 

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