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Glória Groove: "Pessoas não LGBT cantam “Coisa Boa” como hino de resistência pessoal: feminina, trabalhista..."

 Glória Groove

Chegada a Lisboa para dar início à sua primeira digressão internacional, a drag queen brasileira Glória Groove diz sentir-se em casa. As ruas da Lisboa antiga lembram-lhe os bairros históricos das cidades brasileiras, em especial de São Salvador da Baía, e confessa-se impressionada pelo carinho do público português que a reconhece na rua e lhe dirige palavras amistosas. Está visivelmente animada e com grandes expectativas para os concertos de Lisboa e do Porto.

 

 

dezanove: Quando em 2016, a Glória Groove lança o seu primeiro single “Dona”, foi clara quando disse de onde e para o que vinha: “Deixa eu me apresentar/ Sou Glória Groove do Brasil, eu vim pra ficar/ Pode contar prazamiga, vai/ Chama o bonde todo É! Avisa quem chegou/ A dona do jogo (....)/ Pra um dia contar a história/ Da mina que mudou tudo/ Que veio da zona leste/ Pra virar dona do mundo”.

Três anos depois, está em Lisboa na sua primeira digressão internacional. Que Glória Groove podemos esperar da #Fase3Tour?

Glória Groove: Quando eu escrevi esse verso, eu estava indo dormir lá em Votuporanga, no interior de São Paulo, cidade do meu marido, onde tinha visitado os pais dele, e estava pensando “E agora, como é que vou fazer agora para começar?”, eu já tinha gravado “Amor e Sexo” que ia exibir na Globo (era final do ano e ia exibir em Janeiro) e eu falei que precisava de algum trabalho para passar na praça para o pessoal conhecer o que eu canto. “O que eu vou fazer? O que eu vou fazer?” E foi quando a composição começou a fazer sentido para mim, foi depois que me vi no espelho montada que comecei a escrever de verdade, porque foi ali que fez sentido a vida real. Eu falo que drag mudou a minha vida e não é à toa que eu falo isso, porque mudou o jeito que eu percebia a mim, ao mundo e às minhas possibilidades. Então, imagina, o momento que eu compus esse verso sonhando com tudo o que eu estou vivendo hoje e realizando hoje. É surreal, porque não parece que faz tanto tempo, parece que eu estava ali agora, faz só quatro anos que consegui isso tudo. Claro que eu vinha de toda uma construção enquanto Daniel Garcia. Eu trabalho com arte desde os sete anos de idade. Fui de grupo infantil gospel, fiz novelas, trabalhei em dublagem [dobragens] quase a minha vida inteira. E ainda trabalho. Este ano fiz a voz do Aladino no live-action da Disney e a do Chase no filme “Patrulha Canina” [“Patrulha Pata” em Portugal).  Ainda acontece muita coisa na minha carreira como Daniel Garcia. E tenho muito respeito por tudo o que fiz enquanto Daniel Garcia e agora enquanto Glória Groove, porque tudo isso fez o que eu sou. Quando me perguntam “Você esperava que fosse acontecer isso tudo?” Eu sempre digo “Esperava, sim!” Da minha alta capricornianice [brinca] eu falo que sempre esperava, que foi exactamente isso que eu sonhei, exactamente deste tamanho desde que me montei como drag eu soube que poderia fazer algo gigante cantando montada e eu fico muito feliz de ver que exactamente o que eu pensei pode ser real e isso prova o quanto eu sonho. Eu sonho enquanto o meu coração de criança afeminada, como a mesma criança viada que eu fui, vendo tudo isso que eu faço hoje, então eu sonho o tempo todo! Estou brincando de boneca montada, trabalhando fazendo clipe, fazendo show, é tudo de bom para mim.

 

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É uma artista bastante popular em Portugal, especialmente no meio LGBT. Quais as suas expectativas para os concertos em Lisboa e no Porto?

Amor, muito amor. Eu tenho certeza, eu não me importo em quantas pessoas vão estar lá, eu quero muito ter essa sensação de falar “oi eu sou de outro lugar e venho aqui cantar para vocês”, porque eu já sinto um pouco disso quando viajo para lugares muito distantes dentro do meu próprio país. Só que aqui o contexto é diferente, eu sou artista internacional aqui!! É muito louco pensar dessa forma! Eu nunca fui a pessoa gringa, eu sempre fui a pessoa do meu país e existe essa discrepância e eu sinto isso porque eu me preocupei muito na hora de construir a Fase 3 Tour, as três fases que estou afim de oferecer, as três facetas de Glória, três discursos, três jeitos de se comunicar, três momentos, eu mostro três facetas mesmo do que eu sou ali. E eu quis idealizar isso de forma que desse leitura em qualquer lugar, em qualquer época, em qualquer formato, porque o que eu faço questão é de que seja um showcase do que eu possa fazer, do que eu possa oferecer. Então tem muito amor em tudo na Fase 3. Eu estive presente em todo o processo de criação, absolutamente desde tudo, desde as bases do show em que eu estava ali junto passando minhas ideias, até os vídeos do telão em que eu estava ali falando como eu queria, até os figurinos, em que eu estava ali falando com a Bianca, minha styling, pensando como vai ser a estética de cada coisa. Então quando parte da pessoa eu acho que dá uma sensação de raiz e de núcleo, o trabalho é muito maior e garante que o trabalho tem uma cara só. É extremamente fissurante para mim, botar em prática tudo o que eu montei. Toda a vez eu me emociono, fiz poucos shows ainda nesta tournée, já deu para ver muita coisa, o que deu certo e o que não deu e já trazemos coisas novas para testar aqui e estou animada para o mostrar porque eu sei que me vou divertir muito aqui e espero que vocês gostem o quanto eu estou amando! O país está me recebendo muito bem. Eu esperava uma coisa e está superando todas minhas expectativas!

 

Começou a cantar desde cedo, como já disse, em programas de televisão, na igreja. Quando é que foi o encontro com a arte drag. Era um sonho? Como é que surgiu?

Até determinada fase a arte drag era para mim algo completamente distante do meu contexto e até marginalizada.

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Até porque até há muito pouco tempo havia um certo preconceito em relação ao transformismo…

Exactamente! O que se entende como drag queen, evoluiu muito nos últimos quatro anos! Por conta exactamente das drag queen’s terem entrado no espaço do mainstream. Eu sempre via o universo drag como algo marginalizado, que não estava no meu campo, mas sempre com aquela insegurança de identificação extrema. Como quando você é uma criança afeminada e você não quer ser vista perto de uma gay mais velha afeminada porque você nem consegue entender o desconforto que aquilo te causa de tão parecida que ela é com você e você fala “Meu Deus, se eu estiver perto dela, vão me identificar o que eu sou”. É muito louco, não é?! Então eu via na TV a Vera Verão e o Jorge Laffond na “Praça é Nossa”, ou na Rede Tv a Gala Gay em que passava aquele desfile de bichas e travestis e drag queen’s entrando no baile de carnaval, aí aquilo era uma coisa bem distante que eu via só pela TV. Quando eu fiquei um pouco mais velho, a minha mãe começou a levar-me para peças de teatro e eu vi a minha primeira drag queen ao vivo numa peça de teatro chamada “Não em acompanhe que eu não sou novela”, uma drag que estava nessa peça era a Tchaka que é uma drag queen super popular em São Paulo. Quando eu comecei a fazer teatro, a minha primeira montagem foi uma montagem independente do musical Hair que explora o mundo dos hippies, a fase dos anos 60 e já mexeu muito com o meu conceito de libertação sexual, com o que eu entendia do universo e tive o presente de interpretar na peça a travesti que entra e fala com os hippies. Então a minha experiência no palco montada já foi como uma personagem, que era a Margaret, cantando, então era toda uma experiência nova onde tive o prazer em cantar enquanto outra pessoa que não o Daniel e guardei comigo essa sensação. Logo de seguida, RuPaul virou uma febre no meu país. E acompanhar RuPaul Drag Race na Tv e querendo engolir aquilo, me banhar de referências, uma identificação extrema e comecei a querer explorar o drag, evoluir a minha estética e pensei “eu consigo montar uma persona” que não vai ser uma personagem, vai ser completamente eu, mas que vai ser além de mim”. A chegada de um novo nome, de um novo rosto, fez toda a diferença para eu conseguir achar esse poder. É como se a Glória Groove fosse o meu herói, a cantora que eu gostaria que existisse, então pintei em mim.

 

E quais foram as inspirações para criar a Glória Groove?

Primeiramente na minha mãe, na Gina Garcia, mulher, cantora, que me criou como mãe solteira, maravilhosa, minha referência de ser humano e de artista e de tudo. A Glória Groove é fruto das cantoras e dos músicos que eu via com minha mãe. As cantoras glamorosas amigas da minha mãe, são referências para mim. As cantoras que eu sempre gostei e que fizeram muita influência na minha trajectória.  Do Brasil, tenho que mencionar a Flora Matos, Karol Conka, Rico Dalasam e até mesmo Rouge, Sandy & Junior e Rbd. Internacionais, Usher, Alicia Keys, Beyoncé, Nicki Minaj. Sempre gostei muito de rap, Snoop dogg, Lil Wayne. Então, era uma mistura de uma série de coisas que eu acho que coloquei na panela e inventei isso que eu faço agora (risos). RuPaul, mais tarde entrou como principal referência. E não para nunca! A toda hora aparece outro artista. Agora, por exemplo, amo a Rosalía, acho que está reinventando o audiovisual lá onde ela mora e no mundo. Eu continuo consumindo música, continuo sendo fã e me banhando de referências.

 

Até porque se percebe, desde o primeiro álbum, o Proceder, até agora, uma evolução a nível musical, fruto até de participações com outros artistas e mergulhando noutros estilos. Como uma espécie de uma esponja, a Glória foi absorvendo novas influências.

Eu acredito que teve toda uma importância, o facto da minha primeira fase ter sido marcada pelo hip hop, o trap, por esse estilo, porque eu acho que isso me destacou numa cena em que o pop imperava naquela época. Então eu acabei sendo vista e notada como a drag que faz rap, que tem essa possibilidade, essa ferramenta. Mas logo em seguida eu passei a experimentar com o pope misturar o pop com o rap e o funk e trazer tudo isso para um lugar só, para provar o quanto eu sinto que posso fazer tudo isso, que eu me consigo sentir a vontade com tudo isso e que tudo isso sou eu. Eu nunca esqueço a primeira vez que ouvi Bumbum de Ouro, o medo de ouvir aquela faixa e não me ver ali e eu falei “Não, está tudo bem! Eu continuo aqui!”. E essa sensação de pertencimento ao pop também foi importante para mim e nada disso vai parar. Eu vou continuar fazendo tudo o que puder. É muito difícil, inclusive para mim, me definir. Tem lugares que eu não consigo entrar por conta de não ter um estilo definido e não me arrependo das minhas escolhas. Eu acho que é isso mesmo. Sobre não ter que de definir, nem se limitar. Eu vou fazer o que me der na telha.

 

“Coisa Boa” é um dos maiores sucessos do ano, no Brasil e em Portugal. É um funk de empoderamento e autodeterminação. Porquê gravar o clipe numa prisão?

Uma música de libertação num lugar de encarceramento! Na verdade, “Coisa Boa” nasceu a partir de uma reflexão minha. Quando estava para entrar no próximo single que seria “Coisa Boa”, meses antes, o meu país estava a entrar no pior momento político, enfim, para a pauta das minorias LGBT e etc., e eu estava prestes a chegar no verão que é o momento em que os artistas brasileiros fazem músicas fervidas e descontraídas para esquecer de todos os problemas e me parecia muito errado eu entrar no Verão para fazer uma música “isentona”, uma música que não relatasse o que eu achava que era justo falar naquele momento. Então, eu fui atrás da música que tivesse o mesmo tanto de “fervo” e de militância. Um lugar onde o “fervo” e a militância se encontrassem e que a gente conseguisse bradar nosso poder dessa forma. E mais louco sabe o que é? Coisa boa tem outras leituras para outras pessoas. Pessoas que não são LGBT cantam “Coisa Boa” como os seus próprios hinos de resistência pessoal: feminina, trabalhista,… Tornou-se um hino muito fluído e isso me torna muito feliz, saber que ele nasceu a partir da nossa pauta, falando da nossa situação, naquele momento, querendo dizer que não importa o que estiver acontecendo dentro da estrutura político-social do nosso país, nada vai mudar o facto que as drag queen’s e que as travestis fazem e sempre fizeram toda a diferença nos movimentos sociais e na arte, e não é a toa que a gente está tendo todo esse sucesso na sociedade. É isso que eu quero dizer com o “mundo se acabando e a gente manda nessa porra”, porque é verdade, a gente não vai parar de fazer isso enquanto houver a galera que vai ouvir e que vai vir junto com essa ideia. “Coisa boa” nasce dessa vontade de unir todas essas intenções num lugar completamente vibrante e feliz porque eu precisava disso para esse momento, sem tirar o cunho político-social, continuando consciente do que tava acontecendo. E o clipe dentro da prisão foi, na verdade, uma leitura do Felipe Sassi. Ele trouxe para mim essa ideia, para denotar o facto de que no final a gente faria uma rebelião. E então para que aconteça uma libertação tem que existir esse momento onde as ideias estão suprimidas, onde alguém está tentando te segurar ou te conter por algo que você pode fazer ou alguma ameaça que você pode representar e eu achei genial a ideia que ele teve de trazer para esse espaço, porque ao mesmo tempo denota que estamos todos juntos, na mesma situação, faz referência à história do nosso país, faz referência ao que eu venho construindo e faz referência ao nosso discurso enjaulado e ele não pode ser contido. Não existe passos atrás, a gente só pode andar para a frente. E “Coisa Boa” engloba isso, principalmente no momento final em que a gente arrebenta as grades e vive o que sente. É o que eu tenho feito.

 

A continuação é o videoclipe de “Yoyo”, em parceria com a Iza, tem uma referência muito clara a “Telephone”, de Lady Gaga e Beyoncé.  Porquê esse tributo?

A referência à Gaga foi inevitável entrar, porque eu e o Felipe Sassi somos os maiores fãs de Gaga do Brasil!! E a Gaga é o nosso assunto favorito! A Gaga teve um impacto muito grande na minha vida, tanto na vida dele. A gente viveu a nossa melhor fase exactamente na fase em que a Gaga estava no auge.

 

 

E numa altura em que não havia tantos ícones LGBT como existem actualmente…

Exactamente! Existia a Gaga como ícone LGBT, uma pessoa que nos abraçava e por isso ela já nos representava um monte de coisas. Então o nosso assunto favorito é Gaga e a gente está sempre buscando uma referência em Gaga. Tudo o que a gente faz, tem um dedinho dela lá. E aí, a gente estava vindo de uma temática de prisão, a gente sabia que a próxima música seria um feat, então era muito inevitável fazer uma referência ao Telephone. E eu falei para ele, e falo para todo o mundo, que é o clipe que mudou a minha vida. Eu lembro que eu estava, de madrugada, à espera de sair o link para baixar o vídeo. Eu tinha 13 ou 14 anos e estava louco “Meu Deus! Saiu o clipe da minha vida!!!”. Eu nunca mais fui a mesma pessoa depois de ver aquele clipe. Eu senti que podia fazer tudo! E nem sonhava ser Glória Groove, ainda!! Então para mim foi uma sensação de dever cumprido, fazer referência a isso e depois, claro, o que embala a partir disso é o conceito de hackear, de televisão, foram tudo ideias do Felipe, que ele ouvia de elementos na música. Olha que ideia genial! Eu amo muito a maneira como ele trabalha. Ele tira histórias dos lugares mais improváveis e vem com significado, traz uma coisa que é zero à toa. Cada imagem que o Felipe passa, ele está a passar alguma mensagem, e acho que isso é uma preocupação muito legal que faz muita diferença no nosso trabalho. Eu fiquei fã do que ele tinha proposto e quando a gente ouviu o demo com a voz da Iza foi aí que percebemos que o negócio ficou sério, porque tomou forma, e foi aquele sonho que vocês viram. Acho que foi a coisa mais linda que a gente já fez até hoje. Eu quando me vi no espelho com aquele look roxo, eu não queria tirar o look nunca mais! Foi o momento em que me senti mais eu na minha vida! Eu fico muito feliz com o que eu faço!

 

Terá continuação?

Continuação? Não sei! Será que uma outra trama a partir dele ou será que uma continuação dele mesmo? Não sei! Felipe Sassi é meio maluco e pode fazer! A qualquer momento pode acontecer qualquer coisa!!

 

Já fez parcerias outras com outros artistas bastante populares como a Lexa ou o Leo Santana, onde alcançou outros públicos que de outra forma poderiam não escutar a música que a Glória faz. Podemos esperar novas parcerias?

Podemos! Inclusive tem muita coisa que eu gravei recentemente fora do meu próprio trabalho, eu sendo a parceria. Coisas muito legais, que vão chegar, que já estão divulgadas e eu posso contar: tem música com o Kafé, o Iran, artista da Baía, com o Bacu Exu do Blues, também da Baía. São coisas que já estão prontas, estão muito lindas e não vejo a hora de vocês ouvirem porque eu sou muito fã dessas pessoas todas! Fora isso, vai acontecer uma série de outras coisas. Eu nunca paro o meu processo criativo. As pessoas me acusam de ser devedora de álbuns, mas na verdade eu estou sempre trabalhando em alguma coisa e que eu acho que o álbum vai chegar no momento em que eu puder parar na minha vida e me dedicar a isso. Eu não acredito que um álbum seja uma playlist de singles, eu acho que tem que ser uma obra de arte completa. É o que sinto quando ouço “Born this way” ou o “El mal querer”, da Rosalía. Eu quero ter essa chance de construir o álbum dos sonhos.

 

Agora, “Muleke Brasileiro” recentemente integrou a trilha sonora de uma novela em horário nobre.  Sente que está a abrir novos horizontes ao show de drag?

Sinto! Porque isso é um dos factos do ano que me pegou surpreso até agora, porque eu já tinha feito uma música para a novela Dona do Pedaço, a convite da Preta Gil, que se chama “Só Amor” e está nas plataformas e aí vem esse presente: “Muleke Brasileiro” é o último single do “Proceder”, que lancei antes de “Bumbum de Ouro”, numa outra fase da minha carreira e “Muleke Brasileiro” está vivendo um renascimento, nesse momento, e fiquei louca quando ouvi na chamada passando na Globo. A gente escreve a nossa música para coisas assim, para que ela seja tema de um personagem. Para mim é perfeito, porque “Muleke Brasileiro” é um filho muito querido meu, que acho que tivesse nascido noutra época, sei lá o que lhe tivesse acontecido! Lá de onde eu venho, ter uma música numa novela representa uma série de coisas, é uma demonstração de caminhos abertos e de que você está no caminho certo! A gente vivia noutra fase e que bom a gente poder celebrar hoje, na fase em que estou agora! Eu fico extremamente feliz com as duas músicas, porque são duas músicas no ar em duas novelas diferentes. Isso sim, eu jamais imaginei que seria possível!

 

À arte do transformismo, a Glória trouxe a música e um significado político, assumindo a linha da frente na luta contra o preconceito e a discriminação. Considera-se uma artista de intervenção?

Considero! Eu me considero mais uma intervenção, inclusive!! Eu acho que é uma intervenção política não só se montar, mas fazer o que eu faço esse compilado de estar falando, estar à frente do movimento, estar representando o movimento, estar montada e além de tudo isso, e de estar cantando as próprias letras, de estar expondo as suas ideias, botando as ideias para jogo. De facto, eu acho que isso diz muito sobre o tipo de artista que eu sou e porque é que eu me destaquei primeiro, por ser exactamente esse tipo de intervenção, de falar exactamente sobre esse tipo de vivência das bichas, do que é ser uma bicha efeminada no Brasil, do que é viver nesse limbo desse país que é o mais transfóbico, mas que é o que mais consome pornografia com travestis no mundo, a gente vive num lugar muito paradoxal nessa pauta. Então como bicha efeminada eu fui acumulando uma série de experiências traumáticas, interessantes, apaixonantes, que eu não via a hora de me expressar e falar como é que eu tava me sentindo para o mundo e de evoluir a partir disso, porque eu sabia que havia muita gente igual a mim do outro lado, então é uma experiência única.

 

Sente o peso de encabeçar o movimento da luta contra o preconceito?

Não! Para mim é chique! (risos) Eu fico muito feliz quando eu deito a cabeça no travesseiro e penso, “Caramba! A Aja me segue! A Shangela me segue, fala comigo, me deu um leque autografado!” Eu acredito que sendo gay efeminada, gorda (já fui muito mais gorda!),  já experimentei todos os tipos de opressão em que tive que expressar o meu talento para me esgueirar para tentar ser validada de alguma forma.

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Porque o mundo da música vive muito da parte visual.

Exactamente! Era muito difícil eu me sentir pertencente a algo de facto. De eu pertencer a algum rolê, porque eu via um ponto e achava que não era isso. E então eu descobri na arte drag, o lugar onde eu pertencia a cem por cento, em que eu compartilhava os gostos, os interesses, o glamour, o brilho com aquelas pessoas e que era uma identificação extrema. É o tipo de coisa que me dá mais a sensação de pertencimento até hoje. Mais, inclusive, do que a música, eu arrisco dizer. Porque até na música eu encontrei as barreiras para provar que conseguia mostrar valor fazendo música montada assim. Eu tinha amigos que me diziam quando me viram montada pela primeira vez “Porque você vai fazer isso? Porque você vai perder seu tempo com isso? Você tem um talento tão legal, pega numa calça, um blazer e vai lá no The Voice cantar de menino”. E eu sabia que queria fazer a coisa do jeito revolucionário, não queria montar em cima desse privilégio para querer alguma coisa e fingir ser hétero para fazer sucesso. Eu não tinha referências do que podia ser um artista lgbt. Então eu não posso dizer que quando comecei a fazer drag eu não estava a querer reinventar o molde. Eu neguei o molde. Eu quis fazer do meu jeito, do jeito que eu sonhei. Daí que surgiu isso e daí que surgiu a minha admiração pelas drag queen’s, porque é uma arte muito fluída. Hoje com a evolução do drag no mainstream, na cultura pop, você vê as drag queen’s invadindo a música, a moda, o cinema, a TV,é gratificante porque mostra o quanto sempre foi uma contracultura, das mais importantes, e sempre esteve à frente dos movimentos sociais.

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A Glória vem de um país onde a presença religiosa é muito forte e onde muitas vezes essa mesma influência é um impedimento à afirmação sexual dos jovens LGBT. Que conselhos daria aos jovens que se encontram nessa luta interior de “sair do armário”?

Eu só parei de sentir o julgo sagrado sobre minha expressão de género, sobre minha sexualidade, quando enxerguei Deus no que eu fazia e no que eu sentia, eu passeia deixar de enxergar Deus naquela figura patriarcal do julgo e passei a enxergar Deus como a figura feminina e esplendorosa que eu sempre quis ser e a imagem mais forte que eu vi de Deus foi eu montada no espelho. Foi quando consegui enxergar através do que eu conhecia e falei “Você pode ser o que você quiser!”. Se Deus não for isso, eu não sei o que é. Eu falo sempre sobre isso: encontre o que você entende como uma luz divina e eu vejo isso nas coisas mais diversas. E a gente lida muito com essa dificuldade de exercer a nossa expressão de género no país que tem vertentes religiosas tão patriarcais e tão fechadas a esse tipo de expressão. Então, eu não tenho como não sentir que o que eu faço faz diferença a cada dia. Eu sinto que cada vez que levanto o pincel, estou fazendo a diferença e fazendo algo que não é só meu. É para alguém sair na rua, vestir o que quiser, fazer o que puder. Eu não consigo imaginar como deve ser um artista que não tem isso. Ser um artista que depois de um show, deitar no hotel e pensar “Fiz tudo só para mim”. Eu nunca sinto isso! Eu sinto que fiz algo que importa para além da minha bolha pessoal, do meu trabalho, do meu dinheiro e da minha vida.

 

E que consegue ajudar outras pessoas...

Exactamente! Eu sinto que o que eu estou fazendo está elevando a história da minha pauta, dos meus, da minha comunidade, para a frente, todos os dias. É isso que eu sinto. Muito obrigado!

 

Filipe de Oliveira

 

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