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Inês Marto: "Apaixonei-me pela primeira vez por quem sou"

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Inês Marto é um mix de talentos. Blogger, jornalista, compositora [escreveu um dos últimos temas para os Fado Bicha], argumentista, escritora... Por ocasião do seu segundo livro vamos saber o que a move nesta paixão pela vida, pela arte e pelas pessoas que a inspiram. “Metamorfose” chega às bancas dia 11 de Fevereiro com a chancela da Lua de Marfim.

A apresentação pública da obra está marcada para esse dia, a partir as 21 horas, na Casa do Alentejo, em Lisboa. A sessão é aberta ao público e conta já com inúmeras figuras públicas confirmadas.

 

dezanove: O que quiseste abordar neste segundo livro junto dos teus leitores?

Inês Marto: Acima de tudo quis retratar um percurso, um reerguer, um renascer das cinzas digamos. A construção de alguém enquanto indivíduo é sempre um processo cumulativo e cíclico. “Metamorfose” aborda justamente esse processo, essa formação ou transformação de alguém que se prepara para o voo, que aprende a beijar as suas próprias cicatrizes, para chegar mais longe e para continuar em desenvolvimento. Tanto é um reflexo dessa elevação, como, o próprio processo de escrita – e espero que a leitura o possa conseguir também, far-me-ia muito feliz – instigou o voo a ir ainda mais alto.

 

Nesta Metamorfose descobrimos uma nova Inês? Para quem já te segue no teu blogue e no dezanove.pt o que vai ficar a saber de novo?

Não diria que é uma nova Inês, mas é uma tentativa sólida de libertar a Inês autêntica que sempre existiu, é uma “auto permissão” à minha própria existência. Embora não seja sempre eu que ali estou de caras, não posso chamar a isto uma biografia, muito do que constitui este livro também vai além de mim, toca nos meus ímpetos, em quem me inspira, no que me faz sonhar e no que impacta esse meu caminho.

O que surge aqui de novo é, primeiro que tudo, uma estrutura mais coerente e organizada dos pedaços que fui deixando publicados online. Olhei para mim, analisei-me, apaixonei-me pela primeira vez por quem sou – porque só assim este livro teria verdade, e isso, para mim, é essencial sempre – e peguei nos textos um a um, como retalhos que interliguei. Fazem sentido um a um, conforme foram escritos. Mas agora, através dessa auto-observação, contam também esse processo de me aflorar, fluem entre eles para isso.

Talvez a maior novidade, para quem já me segue há mais tempo, seja mesmo a forma como o livro termina. Esse estado a que tive que chegar, de me olhar como olho o mundo e de me amar como amo o mundo, para poder escrever sobre mim como escrevo sobre o mundo. Essa foi a verdadeira metamorfose, foi o que fez com que o título fosse justo. Foi o que fez com que eu própria ganhasse asas.

 

livro Metamorfose.jpg

 

Como surgiu teres a Paula Sá a prefaciar o teu livro? O que te liga a ela?

A Paula e eu temos uma conexão surreal. A escrita foi uma das coisas que mais nos uniu. Ela é das pessoas que melhor conhece esse universo mais lírico dentro de mim. Chega até a parecer absurdo, porque a base desta nossa amizade assenta nesta dimensão para lá de tudo, no intangível, nos nossos sonhos, na vontade imensa que temos de nos puxar sempre uma à outra para este processo de voo. Queremos sempre com muita força a felicidade uma da outra e isso acaba por nos dar força no dia-a-dia.

Desde que nos conhecemos, escrevemos muito uma para a outra e uma sobre a outra. Descobrimos como que essa “concha” em comum e a escrita passou a acontecer de forma quase imediata. Aquilo que até então era um processo tão solitário para mim, modificou-se. Ela aprendeu instintivamente a habitar essa minha “concha”, com uma naturalidade inacreditável. Antes que déssemos por isso, estávamos a inspirar-nos uma à outra e até a escrever juntas.

E depois a Paula tem a característica fantástica de ser crua comigo. Ela não deixa nada por me dizer. Muitas vezes tira-me o chão, ciente disso. Olha para as minhas feridas e agarra na minha mão até que eu própria lhes toque, exactamente por me querer elevar mais alto, por saber que eu posso chegar mais longe e ser melhor.

Então, só fazia sentido que fosse dela o prefácio deste livro. Ela é parte integrante da minha metamorfose quotidiana. E foi ela também que me mostrou que este livro só fazia sentido se eu tivesse essa verdade comigo mesma. Se eu, de uma vez por todas, olhasse para mim e sentisse para comigo aquilo que sempre escrevi tão facilmente sobre tudo o resto. Foi ela que me levou em grande parte a nutrir por mim própria essa poesia, onde o livro termina.

Aliás, o prefácio que ela escreveu espelha perfeitamente o que eu disse aqui. Esta nossa elevação mútua está lá. E muito de quem eu sou, do que é o meu mundo poético e do que trata esta Metamorfose, está lá nas palavras dela.

 

Que espaço pensas que a prosa queer está a ocupar nas livrarias e nas escolhas dos portugueses? Há oferta e aposta suficiente ou ainda vivemos na timidez do preconceito?

Não sei se sei responder a isso da forma mais concreta. Sei que penso que falta aposta na literatura em geral. Digo literatura no sentido do conteúdo e da forma de escrita, falta aposta em quem acredite na Língua Portuguesa e a queira elevar. Penso que vivemos uma época demasiado imediatista e muitas vezes superficial. Os tops de vendas das livrarias falam por si. Felizmente temos bons escritores e algumas editoras que ainda apostam na escrita também como forma de arte.

Agora, mais propriamente em relação à oferta de prosa queer no mercado e à recepção do conteúdo por parte dos leitores, não posso dizer que não haja preconceito, estaria a ser hipócrita e a suavizar uma realidade que, de facto, existe ainda, infelizmente. Mas quero acreditar que estes padrões vão mudando. Também está nas nossas mãos.

Penso que um factor de peso que poderá influenciar essa aceitação, será a forma como apresentamos, neste caso os livros. Pessoalmente, nunca senti nenhum tipo de preconceito em relação à minha escrita. E a verdade é que o conteúdo queer lá está, como parte integrante de mim que é.

Mas, em relação à divulgação dos livros, sempre optei por nem esconder nem dar especial destaque a isso. Acho que deverá ser perspectivado de forma tão natural como qualquer outro tema, é para isso que lutamos. Então, sempre foi assim que tratei o conteúdo LGBT+ da minha escrita – tão naturalmente como o resto. Dessa forma, creio que também virá a ser encarado naturalmente pelos leitores. Penso que a naturalidade poderá mesmo ser um dos grandes trunfos na luta pelos direitos LGBT+. Apenas estar e apenas ser, livremente e sem necessidade de disclaimers. Um dia, lá chegaremos, e tenho o maior gosto em ir fazendo parte desta luta.

 

Penso que a naturalidade poderá mesmo ser um dos grandes trunfos na luta pelos direitos LGBT+.

 

A que te dedicas profissionalmente para além destes hobbies? O que gostarias de conseguir em 2019?

Dedico-me profissionalmente a escrever. Esta é a minha vida e é assim que quero continuar. Escrevo também peças de teatro e tenho-me aventurado em letras de canções, que tem sido algo que me deixa muito feliz. Em 2019 gostaria de continuar por aí, penso que agora estou no caminho certo, sinto que sim. Gostaria de escrever novas peças, começar novos projectos e encontrar forma de dar vida a algumas ideias minhas. Gostaria muito de poder dedicar-me mais ao activismo, desenvolver mais o trabalho que tenho feito aqui no dezanove, que também me concretiza muito. E lutar também pelos direitos das pessoas com diversidade funcional, creio que este ano trará novidades a esse respeito. Gostaria também de vir a ter um espaço na imprensa escrita, onde os meus textos pudessem chegar mais longe, acredito que isso possa vir a acontecer. Mas essencialmente quero continuar a criar, a trabalhar na arte de todas as formas quantas consiga trabalhar com qualidade e o mereça. E quero continuar a dar de mim ao mundo, acredito que é para isso que cá estamos todos. Termino apenas com um obrigada, Paulo Monteiro e dezanove, por esta entrevista. É sempre especial colaborar com este espaço que me tem trazido circunstâncias tão felizes. E espero que continuemos lado a lado neste novo ano!

 

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