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O contrato social da heterossexualidade

Daniela_Alves_Ferreira

Não tenho muita necessidade de me colocar em caixas, mas há uma que me assenta como uma luva: Sapiosexual. A inteligência de uma pessoa desperta em mim um forte poder de atração. Estou por isso a passar por uma grande crush por Monique Wittig.

Monique Wittig foi uma pensadora francesa que escreveu sobre a heterossexualidade compulsória e a construção das categorias de sexo. Retrata uma sociedade onde prevalece uma espécie de contrato social da heterossexualidade que, apesar de não estar escrito na lei, está implícito nas convenções culturais. Validado por uma suposta  ordem natural, este contrato tem implícito a universalização da heterossexualidade e a naturalização da diferença entre homens e mulheres. O objectivo do contrato social da heterossexualidade é o da dominação masculina. A classe dominante é o homem branco heterossexual que oprime os que são diferentes de si: os homens negros, as mulheres, os gays, as lésbicas. Grande parte das mulheres inseridas no contrato social da heterossexualidade não têm consciência que este é um sistema que as oprime. Os homens, por sinal, sabem que dominam as mulheres, pois foram educados a isso. Recusam reflectir sobre a desigualdade, pois esta é a base de um sistema que os beneficia. 

A submissão da mulher concretiza-se, quando esta põe em prática as cláusulas do contrato social da heterossexualidade. No campo privado, a mulher heterossexualizada assume e dá primazia ao trabalho não pago, ligado à tarefa da reprodução: criar filhos, fazer as tarefas domésticas. O homem, livre desse trabalho, dedica-se plenamente à carreira profissional. Esta priorização do trabalho por sexos tem como reflexo a diminuição do poder económico da mulher face ao homem, que é exatamente o objetivo do contato: a dominação masculina.

No campo público, a submissão da categoria mulher é também facilmente observada. Por exemplo na linguagem, espelho da dominação masculina. A forma abstrata,  geral e universal é representada pelo género masculino. O género feminino existe apenas como uma particularização. Isto anula simbolicamente a mulher, que ao incorporar inconscientemente essa anulação acaba por se retrair, pedir licença, desculpar-se pela ousadia de falar. 

Para além da oposição homem/mulher, no contrato social da heterossexualidade existe também um discurso de oposição entre Hetrossexualidade/homossexualidade. Por exemplo, a escrita que aborda o tema da homossexualidade é vista apenas como especifica dessa realidade. Nunca é colocada ao mesmo nível da literatura sobre o universo hetero, esta sim vista como universal. Trata-se de um contrato que promove  a ideia que a homossexualidade é algo desviante e a heterossexualdiade como a única orientação sexual natural.

Monique descreve-nos assim de forma crua os contornos do contrato social da heterossexualidade, mas dá-nos também alguma esperança. Diz-nos que este contrato não tem de ser vitalício.

Monique descreve-nos assim de forma crua os contornos do contrato social da heterossexualidade, mas dá-nos também alguma esperança. Diz-nos que este contrato não tem de ser vitalício.

Acredita que para rescindir o contrato que as submete, as mulheres devem primeiro tomar consciência da sua submissão e depois fugirem uma a uma desse contrato. É aqui que entramos na ideia de um feminismo lésbico. Monique foi uma das impulsionadoras da corrente do feminismo lésbico. Para Monique a lésbica é uma fugitiva do contrato social da heterossexualidade e da categoria mulher. Chega mesmo a dizer que a Lésbica não é uma mulher. Para si, é na fuga da categoria mulher que se deve focar no feminismo. 

Monique Wittig é crítica de alguns movimentos feministas que defendem a igualdade na diferença, pois é exactamente essa diferença que coloca as mulheres num lugar de submissão. Não teve tanta visibilidade como os seus pares, exactamente por ter um discurso feminista lésbico radical. O seu pensamento foi silenciado primeiro por ser mulher, depois por ter um pensamento marcadamente lésbico.

O seu pensamento foi silenciado primeiro por ser mulher, depois por ter um pensamento marcadamente lésbico.

Identifico-me muito com o seu pensamento. Desde cedo tenho consciência da forma compulsória como a heterossexualidade é promovida na sociedade e de como os papéis e desigualdades de género estão presentes nas dinâmicas entre homens e mulheres. Consigo observar facilmente como nos relacionamentos afectivo-sexuais existe, em maior ou menor escala,  uma relação de subalternidade das mulheres perante os homens. Um exemplo gritante dessa submissão é a opção da mulher assumir o nome do marido quando se casa. Felizmente esta parece ser uma prática que está a cair em desuso. No entanto, a prática de colocar o nome do pai como último nome dos filhos, apesar de nada haver legalmente a que o obrigue, é algo generalizado e que nem mesmo as feministas ousam contestar. Para a grande maioria dos casais heterossexuais, o homem assumir uma posição de dominação em relação à mulher é algo muito naturalizado. Por exemplo, a decisão de quem conduz o carro da família ou de quem conduz uma dança, dificilmente chega a ser colocado em discussão pelo casal. Nunca me revi nestas dinâmicas de subalternidade afectivo-relacionais e hoje sei, graças a Monique Wittig que a minha identidade foi construída em grande parte em oposição às cláusulas do contrato social da heterossexualidade.

Um exemplo gritante dessa submissão é a opção da mulher assumir o nome do marido quando se casa. 

Gostaria de poder convidar Monique Wittig para conversar sobre todas estas questões, idealmente em frente a um copo de vinho.

Texto baseado no Livro O pensamento heterosexual e outros ensaios (Monique Wittig, 1992).

 

Daniela Alves Ferreira

 

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