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O Erotismo como Resistência

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Carlos Marinho é psicólogo clínico, criador artístico freelancer, e activista pela promoção dos direitos LGBTQI+. Baseado em Braga, dirige há três anos um núcleo de serviços dedicado à optimização do crescimento pessoal e comunitário, desde consultas de acompanhamento terapêutico a projectos de intervenção social alicerçados no cruzamento entre os domínios da arte e da psicologia. Definindo-se como um perpétuo aluno, conta no número dos seus principais interesses o estudo da história da humanidade, o feminismo, o erotismo, os estudos queer, a psicanálise, e a identidade individual e colectiva. Até à data, o trabalho artístico tem incluído a produção literária, a representação dramática, o teatro musical, a videografia e as artes plásticas. Foi há sete anos que começou a tomar-se como modelo para explorar a arte da fotografia erótica, mas só recentemente decidiu criar e partilhar os primeiros conteúdos do seu portefólio selfietográfico: ‘Eroticarium: Erótica como Resistência’. Trata-se do perfil de Instagram onde vem expondo, assumindo o seu alter ego ‘Kinky’, estudos visuais como veículo de intervenção social para destacar causas que lhe são significativas.  

 

 O EROTISMO COMO RESISTÊNCIA

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Cresci transgressor. Como ninguém é realmente feliz fora da autenticidade, não me restou outra hipótese válida. Transgredir a normalidade desejável foi sempre uma condição fundamental para manter-me autêntico. Comecei por transgredi-la ao naturalizar, com orgulho, uma orientação sexual cuja existência e visibilidade eram insultuosas para o mundo. Continuei a transgredir, como criador artístico, ao apostar esforços numa vocação cuja relevância era persistentemente desvalorizada. Voltei a transgredir ao compatibilizar a imagem do artista com a persona socialmente ensoberbada do psicólogo clínico. E transgredi ainda ao investir num ‘look’ de cabelo pintado, uso de piercings e tatuagens, frequentemente lido como pouco convencional e diletante. O processo de conciliação não foi fácil. Mas devo muito ao conhecimento destas áreas ocupacionais, já que foi através delas que percebi que não há evolução sem que se desenvolvam todos os canais, todos os mecanismos e todas as dinâmicas da nossa expressão pessoal. Não existe vida sem criação e não existe criação sem a possibilidade de nos transformarmos e de nos reconstruirmos. Hoje não sou remisso em apresentar-me como um poliprofissional queer, satisfatoriamente realizado, fiel à originalidade dos meus desejos como forma de resistir aos insultos dessa normalidade desejável.

Transgredir a normalidade desejável foi sempre uma condição fundamental para manter-me autêntico.

Quando comecei a explorar a arte erótica, há sete anos, senti que cometia uma nova, talvez mesmo imperdoável, transgressão. Isto porque o erotismo é fundado no terreno da pulsão sexual, e o culto dos sentidos foi sempre temido e condenado. A ordem social tem medo da paixão, desconfia de tudo quanto a aproxime da animalidade, do ignominioso, do ingovernável, do vulnerabilizante. Quando o medo se nos torna intolerável, tentamos submeter os sentidos pela abstinência, pelo silêncio, e pela flagelação: espartilhamos o sexo através de expectativas sociais, frequentemente sancionatórias, que ditam como nos devemos sentir, pensar e como devemos agir. A liberdade, que é por natureza autónoma, ao identificar-se com a bondade ou com a perfeição, dilui-se. O que equivale a amputar parte da nossa constituição essencial. E é como sintomas de desintegração que depois surgem experiências angustiantes de culpa, de vergonha, fobias, desejos disruptivos, sentimentos de indiferença e até aversão ao sexo.

Onde houver um preconceito haverá sempre uma limitação da personalidade. Onde houver um tabu haverá sempre uma restrição dos horizontes do mundo. A transgressão liberta emocionalmente, e a liberdade emocional está sempre do lado da saúde mental. Foi assim que percebi no erotismo um elemento de cura, um agente terapêutico. Desafia os tabus definidos pela ordem social, e maximiza os nossos potenciais. Por outro lado, percebe-se que a liberdade sexual não existe descontextualizada de um certo entendimento sócio-político e económico. Então, o erotismo permite transformar os sentidos em elementos de um novo conhecimento, e o conhecimento é uma arma de resistência a uma inserção sócio-existencial insatisfatória ou até mesmo desdignificante. Penso que é sempre mais difícil odiarmos uma pessoa quando a compreendemos. O mesmo é válido para o domínio da nossa própria interioridade, para facetas nossas que temos dificuldade em aceitar. Devemos então educar-nos nesse sentido: procurar em novas formas de conhecimento o antídoto da intolerância, o aperfeiçoamento da arte da aceitação e do cuidado pessoal e interpessoal.

Onde houver um preconceito haverá sempre uma limitação da personalidade. Onde houver um tabu haverá sempre uma restrição dos horizontes do mundo. A transgressão liberta emocionalmente, e a liberdade emocional está sempre do lado da saúde mental.

 

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Então, o erotismo permite transformar os sentidos em elementos de um novo conhecimento, e o conhecimento é uma arma de resistência a uma inserção sócio-existencial insatisfatória ou até mesmo desdignificante. Penso que é sempre mais difícil odiarmos uma pessoa quando a compreendemos.

 

A inclinação criativa para o fazer artístico ajudou-me a estruturar a forma como lido com a experiência erótica. De início a fotografia era apenas uma trivialidade. Mais tarde, converteu-se numa forma de ventilação narcísica, e em seguida espessou-se como gerador de um sentido de continuidade identitária. Hoje, o poder que a entrona vem de me ampliar a visão sobre os meus próprios potenciais, e de me oferecer um receio para a imaginação. Sou amador e não reclamo nenhuma proficiência. Basta um telemóvel, um suporte, a luz certa. Foi assim que nasceu o avatar “Kinky”, o alter ego cibercorpóreo que manobro para me representar no mundo digital. Usando o Instagram, desenhei o ‘Eroticarium’ – o universo do ‘Kinky’ – como uma vitrine online de fotografia digital erótica, disposto à partilha pública, como forma de naturalizar as tantas nuances do impulso sexual através do trabalho criativo, bem como de testar visões artísticas, e esperançosamente inspirar noutras pessoas a mesma iniciativa libertária de autoconhecimento e de autoaceitação. Esta proposta baseia-se na crença de que todas as pessoas têm capacidade inata para serem criativas, que a criatividade é uma função mental fundamental para o equilíbrio humano, que é extravasada por diversas formas de comunicação verbais e não-verbais, e que as artes, os ritos, e os jogos são antes de mais nada puras funções mentais de estabilização, desenvolvimento e homeostase individuais e sociais. Tendo alguma prática a servir-me da arte como veículo de intervenção social – trabalhando causas ou ideários que me são importantes, como as exposições ‘Pedra Papel Tesoura Beija-me’ (2013) ou ‘Sonhar com Ladrões’ (2018) – decidi que o ‘Eroticarium’ poderia ser uma plataforma ao serviço do mesmo propósito.

 

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O ‘BLOOD ROOMS’ foi o primeiro projecto que desenvolvi nesta linha. Trata-se de um estudo visual sobre o comportamento autodestrutivo presente no uso de glory holes*, elementos que aqui pretendem representar a noção de prática sexual de risco. A minha inspiração veio de uma análise crítica sobre como os valores mercadológicos da sociedade pós-moderna tendem a pressionar-nos para a competição, para o lucro e para a ostentação narcísica, alienando-nos da nossa própria autenticidade emocional. À medida que se nos substitui um espírito de manipulação e instrumentalidade, também o relacionamento interpessoal sofre a perda do carácter directo e humano, gerando a angústia de uma desinteriorização de vivências significativas. Não raro, o vazio que daqui resulta leva-nos à procura de prazeres compensatórios que se pervertem para vícios e relações tóxicas (ideia que quis representar fotograficamente através das ‘facas-pénis’). Por se tratarem de um expediente para a gratificação sexual com um certo grau de anonimato, a escolha dos glory holes pretende assinalar a recusa da imprescindibilidade do Outro, o crescente desapego vivido nas relações interpessoais, a estranheza e banalização face ao que é do domínio das trocas afectivas, a diminuição do diálogo, e o sombrio sentimento de precariedade que faz com que ninguém pareça insubstituível. É pela porta deste desencontro relacional que entra a doença venérea ou, numa outra leitura, a doença degenerativa da nossa própria humanidade (traduzidas pelo ‘sémen-vermelho’ que domina cada tela fotográfica). 

A escolha dos glory holes pretende assinalar a recusa da imprescindibilidade do Outro, o crescente desapego vivido nas relações interpessoais, a estranheza e banalização face ao que é do domínio das trocas afectivas, a diminuição do diálogo, e o sombrio sentimento de precariedade que faz com que ninguém pareça insubstituível.

 

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‘FORGET US NOT’ é o título do meu segundo e mais recente trabalho. Um mosaico de imagens que semiocultei pelos alçapões da grelha do Instagram, fundindo fotografias conceptuais com registos dos principais marcos e movimentos da luta LGBTQI+ ao longo da história portuguesa. É, na verdade, o esboço de um projecto maior de arquivo de memórias LGBTQI+ em que estou a trabalhar desde o ano passado, e que conta com a colaboração de outras entidades nacionais, a preparar-se para ser divulgado ainda este ano. Na sua maioria, os lugares de memória do Ocidente moderno (museus, arquivos, casas de cultura, institutos históricos – aqui fotograficamente representados como molduras de quadros de telas rasgadas) tendem a compactuar com a cristalização de uma certa versão oficial da memória colectiva, concentrando representações discursivas que suportam um passado tradicionalista e conservador, e manipulando a história para assegurar o constante protagonismo hegemónico do homem branco, ocidental, conquistador, e hetero-normativo. Ao fazê-lo, invisibilizam a diversidade de grupos lidos como ‘subalternos’, no número das quais se contam as comunidades LGBTQI+. O silenciamento das nossas memórias (aqui expresso através das pinceladas de tinta branca e da gradação que vai crescendo de uma quadrícula para outra) vem activando fobias à diversidade sexual, e gerando disposições de perseguição, descriminação e violência – a destruição de registos, cartas e testemunhos que lhe servem de documento, resulta a médio e longo prazo numa perda de conhecimento da sua tradição, património cultural, continuidade e esteio social. Procurando abrir caminhos para a reconsolidação das memórias LGBTI+, o ‘FORGET US NOT’ é um trabalho fotográfico de reivindicação de um passado, e de legitimação do lugar activo das comunidades LGBTI+ na história do corpo social, promovendo a sua coesão e continuidade.

O silenciamento das nossas memórias (aqui expresso através das pinceladas de tinta branca e da gradação que vai crescendo de uma quadrícula para outra) vem activando fobias à diversidade sexual, e gerando disposições de perseguição, descriminação e violência – a destruição de registos, cartas e testemunhos que lhe servem de documento, resulta a médio e longo prazo numa perda de conhecimento da sua tradição, património cultural, continuidade e esteio social.

Tudo o que nos negue uma afirmação pessoal de autenticidade limita a nossa felicidade, o nosso bem-estar e o nosso sentido de realização. Em muitos casos, seja ele expresso por bloqueios desenvolvimentais ou sintomas psicopatológicos, o sofrimento surge associado à pressão dilemática de escolher entre o que genuinamente somos ou agradar às idealizações que nos incutem, levando a escolhas não autênticas. É de viver em função de uma identidade que não corresponde ao seu presente, cada vez mais afastada da possibilidade de autoafirmação e da capacidade de fruição da vida, que uma pessoa adoece. Amiúde digo então que ninguém subsiste parcialmente, que o ‘eu’ não entende de metades. Quem não se permite inteiro, não se pode dar na sua inteireza. Isto é particularmente importante se pensarmos no carácter activo do amor como consistindo, primordialmente, em dar, e não em receber. É então imperativo trabalharmos para uma cultura social que incentive o desenvolvimento da individualidade genuína, que nos coloque em sintonia connosco próprios/as.

Amiúde digo então que ninguém subsiste parcialmente, que o ‘eu’ não entende de metades. Quem não se permite inteiro, não se pode dar na sua inteireza.

Até agora o feedback das pessoas – maioritariamente associadas à comunidade LGBTQI+ – tem sido encorajador. Apreciam a qualidade criativa das fotografias, apreciam respeitosamente o que tenham de excitatório para elas, e também a percebida ‘audácia’ que me atribuem por ‘expor o meu corpo desta maneira’. Algumas partilham que gostariam de fazer o mesmo, mas “não têm coragem” ou não se sentem confortáveis com o próprio corpo. Acabam por retrair-se como estratégia para se protegerem da discriminação e do estigma, ou como resultado de dificuldades em rejeitar o insulto que imaginam poder ser-lhes dirigido. Há também quem não aceite sem suspicácias o entrecruzamento das minhas áreas ocupacionais (“Um psicólogo não devia”). Na minha prática clínica, porém, vejo que não é possível existir e resolver as nossas necessidades sem um funcionamento divergente. É isto que me torna flagrante o continuum que vai das artes aos cuidados psicoterapêuticos. Mas são muitos séculos de divisão entre espírito e matéria – parcialmente devido à herança do pensamento cartesiano – que temos ainda para sanar. Enquanto homossexual, os insultos intensificam-se sob forma de slutshaming, tanto por parte de pessoas dentro da comunidade LGBTQI+ como por parte de pessoas fora dela (“puta”, “isso é só para o engate”). Seria bom deixarmos de acreditar que temos o direito de dizer ao Outro como ele/a deve ser. Acima de tudo, a experiência do ‘Eroticarium’ é divertida, e é essa dimensão lúdica que me mantém focado.

Se cada um/a fizer o seu próprio percurso de individuação, e se cada um/a se permitir compreender e aceitar a diferença, talvez possamos então co-construir uma sociedade assente na responsabilidade social, uma sociedade mais solidária e menos solitária, onde cada pessoa seja singular, mas nunca só. Gosto de pensar que vou fazendo a minha parte.

 

Carlos Marinho

 

[* Orifícios criados em certas paredes de clubes de sexo, sex-shops, casas-de-banho e outros espaços, para a prática de felação, coito e masturbação]

 

Para teres acesso a todo este portefólio selfietográfico segue o Instagram kinky_lharias aqui.

 

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