Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

Polémica poliamor/Manuel Damas: "A grande maioria das pessoas poliamorosas são não-heterossexuais"

As declarações de Manuel Damas no programa Sexualidades, Afectos e Máscaras, transmitido pelo canal de televisão de cabo MVM, continuam a dar que falar.

Um grupo de colectivos, liderados pelo PolyPortugal, subscreveu um abaixo-assinado em que pede a intervenção da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Ordem dos Médicos e Canal MVM face à posição do sexólogo sobre o tema. Em entrevista ao dezanove, Manuel Damas, presidente da associação CASA, reagiu, declarando que "sobram sempre os fundamentalistas e esses são sempre os mesmos". O presidente da CASA pôs ainda em causa na mesma entrevista a "credibilidade" e "existência legal" dos grupos que apoiam o manifesto. Os visados respondem agora no dezanove. O PolyPortugal preferiu atribuir as respostas a esta entrevista ao grupo, já que "foram produzidas colectivamente enquanto produto do grupo PolyPortugal". Até ao momento, 222 pessoas subscreveram a petição.

 

dezanove: O poliamor costuma levantar alguma polémica junto de alguns activistas LGBT, havendo até quem considere que não devia integrar os manifestos das marchas do orgulho. Por que acha que o poliamor é também uma questão de direitos LGBT?

PolyPortugal: O ónus da prova da irrelevância está justamente do lado de quem defende a diversidade e pluralidade mas depois cria exclusões. Como disseram as Bichas Cobardes, no dia 26 de Julho, no Facebook: "É o movimento LGBT+ que precisa de se justificar se quiser, agora, separar uma coisa que está escrita na sua génese, desde sempre, do seio de si". O PolyPortugal é, por exemplo, um dos membros fundadores da Marcha do Orgulho LGBT do Porto. O PolyPortugal é um dos membros da Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa. O próprio Manuel Damas apadrinhou a Marcha do Orgulho LGBT do Porto de 2009, altura em que o poliamor fazia parte das reivindicações do Manifesto da Marcha. A investigação mais recente feita até ao momento (de onde se destaca, por exemplo, o Loving More Survey) conclui inequivocamente que a grande maioria das pessoas poliamorosas são não-heterossexuais. O cruzamento entre a comunidade LGBT e a comunidade poliamorosa já foi o foco de vários estudos internacionalmente reconhecidos (veja-se, por exemplo, o livro "Understanding Non-Monogamies", publicado pela Routledge).

 

Por que decidiram avançar com uma petição contra as declarações de Manuel Damas no canal MVM? Essas declarações não se inscrevem no direito de liberdade de expressão?

A patologização e a difamação não-fundamentadas são problemas de longa data contra os quais o movimento LGBT+ luta desde há muito, vindos de uma sociedade hetero-mono-normativa, pelo que devemos ser capazes de identificar o mesmo tipo de argumentos, ainda que eles se projectem contra outras minorias. O grupo PolyPortugal, junto com mais de uma dezena de outros colectivos LGBT+, denunciou publicamente aquilo que se considera ser uma quebra grave da deontologia médica, da deontologia para a Comunicação Social e de alguns dos próprios princípios que orientam o activismo LGBT+ (não-discriminação, diversidade, despatologização). Identificar um determinado grupo de pessoas enquanto "criminosos" e patologizar as formas de afecto e relacionamento amoroso que, estima-se, milhões de pessoas praticam de forma tão bem-sucedida quanto as pessoas em relações monogâmicas é utilizar as mesmas estratégias retóricas que são ainda utilizadas contra a comunidade LGBT+ em geral (e que já foram criticadas em profundidade num artigo publicado numa revista científica, este mesmo ano, por exemplo). Tal como nos opomos contra o bullying homofóbico ou transfóbico, e não o consideramos como "liberdade de expressão", também temos de nos opor ao bullying polyfóbico - ainda que este possa afectar menos pessoas, ou ser menos socialmente expressivo ou impactante que os anteriores.

 

Que reacção esperam da ERC e da Ordem dos Médicos ao vosso protesto?

Esperamos que estas instituições ajam de acordo com os seus próprios valores e princípios. Uma parte central do problema originado pelas declarações de Manuel Damas não tem nada que ver com poliamor - a ideia de que um médico pode, enquanto médico, vir para a televisão e, entre outras coisas, descrever ou aconselhar práticas de auto-mutilação e suicídio - como se esta opção fosse preferível a fazer-se parte de uma minoria afectiva. Isto tem de ser considerado impensável e inaceitável, seja em que circunstância for.

 

É inédito um grupo de associações LGBT apresentar uma queixa contra um presidente de outra associação. Esta situação não enfraquece a luta pelos direitos LGBT em Portugal? Não haveria outra forma de resolver este conflito?

Tendo em conta que a maioria das organizações que organiza a Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa e do Porto, bem como outras organizações nacionais e estrangeiras, são co-signatárias do abaixo-assinado, esta pergunta é estranha e incompreensível. Tendo em conta que este abaixo-assinado não é senão uma resposta a algo que lhe precede, a pergunta torna-se ainda mais incompreensível. Se a maioria dos colectivos apoia o PolyPortugal nesta questão, de onde vem o enfraquecimento? Não é o discurso discriminatório de quem apoia o fim da discriminação a maior contradição possível? Não são as contradições que enfraquecem os argumentos de defesa dos direitos?

 

Que comentário vos suscita a resposta de Manuel Damas acerca da alegada falta de "credibilidade" e "existência legal" dos grupos que apoiam o vosso manifesto?

A credibilidade nada tem que ver com existência legal - aliás, a própria associação CASA apenas tem existência legal há cinco anos. Será que isso quer dizer que todo o trabalho de Manuel Damas até à constituição formal da associação CASA não tem credibilidade? Uma das organizações signatárias é o Clube Safo, que existe formalmente desde 2002, por exemplo. Outros grupos simplesmente não desejam nem nunca desejaram obter um estatuto legalmente configurado. Os vários grupos LGBT signatários têm trabalho feito e documentado, não necessitam certamente de o publicitar a todo o momento. Mais grave ainda é o uso de acontecimentos tão problemáticos quanto estes para auto-promoção - o discurso de ódio não pode, em situação alguma, servir de trampolim para a publicitação de pessoas ou entidades.

 

Que iniciativas tem o PolyPortugal previstas no curto ou médio prazo, no sentido de divulgar as iniciativas da associação?

A agenda de actividades do PolyPortugal não nos parece, de todo, relevante para a discussão central, que tem que ver com as afirmações problemáticas, patologizantes e dissonantes do que é a investigação científica sobre o tema (uma compilação feita em 2008 sobre investigação na área do poliamor pode ser consultada aqui, por exemplo) e, mais grave, com o peso simbólico de uma instituição que tem à frente um médico que, na televisão, se permite falar de auto-mutilação em jeito de sugestão prática. Por outro lado, consideramos relevante perguntar que papel pensa o dezanove, e outros órgãos de comunicação especialmente dirigidos ao público LGBT+, ter, face ao nível de desinformação sobre poliamor, sobre discurso de ódio e sobre a violação dos princípios de base para o exercício da liberdade de expressão no contexto de uma Democracia que se pretende, sempre e cada vez mais, diversa e fundamentada no respeito pelas várias identidades, modos de existência, sexualidades, géneros, afectos e uma miríade de outras expressões que cada pessoa pode ter.

 

Nota do PolyPortugal: LGBT+ é uma expressão usada para abreviar formulações mais longas como "LGBTTQQIIAA" e para deixar o campo aberto para novas e futuras designações.

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Luís Miguel Viterbo 02.08.2014 15:17

    O PolyPortugal é um conjunto relativamente alargado de pessoas, incluindo algumas pessoas ativistas e muitas que não o são.
    O Daniel Cardoso, felizmente, faz tudo para defender e dar a conhecer o poliamor e este coletivo. Sendo, por escolha própria não isenta de inconvenientes pessoais, mais ativo do que qualquer das outras pessoas do coletivo, é natural que saia visto como protagonista. E quem lhe dera a ele que parassem de meter «as namoradas» ao barulho, como se fossem acessórios de moda que ele traz ao peito.
    Comentários deste tipo servem apenas de manobra de diversão do que realmente é aqui tratado: um chorrilho de disparates proferidos numa entrevista.
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.