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Nem na mata se encontram histórias assim

“Se nós não estivermos no epicentro da nossa própria comunidade onde iremos ficar na história?”

Santiago MBanda Lima

5.5 Uma série de cinco entrevistas que vamos publicar nos próximos tempos a cinco pessoas que, de uma forma ou de outra, contribuíram positivamente para que tenhamos Orgulho em sermos quem somos e que nos tenham inspirado e facultado os seus conhecimentos em prol de um país melhor.

 

 

Hoje é a vez de falar com o Santiago Mbanda Lima, Director Executivo da associação intersexo, antirracista, interseccional e transfeminista, Ação Pela Identidade.

 

dezanove: Como olhas para a integração das pessoas LGBTI+ na sociedade portuguesa ao nível de direitos conquistados na última década? 

Santiago Mbanda Lima: A sociedade portuguesa, baseada na população geral, incrivelmente consegue rever-se nas pessoas LGBTI+. Tendo em conta isso, os nossos direitos foram conquistados com muita mais dificuldade junto de figuras de poder político e governativo, do que com as pessoas com quem lidamos no dia-a-dia. Apesar disto, a legislação garante muito pano para manobra junto de familiares e amigos que compreendem que um registo de protecção e reconhecimento na lei torna-nos reais e passíveis de respeito (só quero frisar que somos reais independentemente de aprovação externa ou legislação).

Paralelamente, nos diferentes organismos, especificando o acesso à educação, saúde e trabalho, ficamos àquem do que a legislação permite e vemos esses direitos terem que ser batalhados junto de diferentes poderes que recusam a nossa garantia de não-discriminação existente na constituição.

"Somos reais independentemente de aprovação externa ou legislação."

 

E a nível social, o que falta? Consideras que Portugal precisa de mais “role models” e visibilidade trans e intersexo?

A visibilidade deve, garantidamente, ser acompanhada de respeito entre pares, de reconhecimento dentro da comunidade, para complementar a história do movimento de forma correcta. A responsabilidade recai sobre nós, no presente, de corrigir erros do passado e reformularmos a forma como lidamos, falamos (sobre e com) de “role models”. Esperar que passem quase 50 anos para percebermos de onde vem o nosso PRIDE, é uma falha grande para com as lideranças trans femininas negras e latinas. No caso de Portugal, espero que a comunidade perceba o erro, entenda a conexão e mude a postura perante as pessoas que já são “role models” no aqui e no agora. Contudo, “role models” e lideranças são bem-vindas de forma consciente e informada sobre o que estamos a lutar, a atingir e a garantir enquanto população e movimento nacional e internacional. A comunidade intersexo, da qual faço parte, espera que haja trabalho a ser feito no nosso tópico, com responsabilidade e know how, partindo da primeira pessoa.

 

Quais consideras serem as maiores dificuldades que as pessoas trans e intersexo enfrentam no Portugal de 2021? Que conselhos dão aos jovens que vos contactam na API?

Ironicamente, as dificuldades têm sido na premissa mais básica do nosso movimento que é: nada para nós, sem nós. As marchas LGBTI+ são e sempre serão por causa das próprias pessoas que compõem esta população, só para mencionar um exemplo. O mesmo se toca no que é a responsabilidade individual e colectiva de cuidarmos das nossas pessoas, do nosso profissionalismo e expertise, da nossa vivência, dos nossos corpos e das nossas identidades. Os conselhos que damos, partem daqui, muitas organizações querem trabalhar nestes tópicos trans e intersexo, ganhar financiamento com os mesmos, deixando-nos completamente de lado, nos processos de decisões, no trabalho remunerado e financiado. Dando mais um exemplo, eu tenho esclerose múltipla e existem várias associações representativas de pessoas com esclerose múltipla - estas organizações foram fundadas e são lideradas por pessoas com esclerose múltipla - o mesmo tem de acontecer com as associações que são LGBTI+. Poderia ainda continuar com mais exemplos de outros grupos que formam e lideram as suas organizações de forma genuína e focada na sua população.

“Muitas organizações querem trabalhar nestes tópicos trans e intersexo, ganhar financiamento com os mesmos, deixando-nos completamente de lado, nos processos de decisões, no trabalho remunerado e financiado.”

A comunidade LGBTI+, deve garantidamente estar a receber recursos financeiros e não financeiros diante todo o discurso de ódio radical, em crescendo, no nosso país, principalmente contra as pessoas trans e intersexo. Porque se nós não estivermos no epicentro da nossa própria comunidade onde iremos ficar na história? 

 

A pandemia que atravessamos veio expor algumas fragilidades com que as pessoas LGBTI+ se deparam. O que podemos fazer sozinhos ou em grupo para colmatar as desigualdades acentuadas pela pandemia?

Acho que colectivamente devemos ter em mente que pessoas da nossa comunidade estão mais fragilizadas que outras. Nomeadamente, mulheres trans sem acesso a nome social, mulheres trans sem acesso a trabalho remunerado, pessoas intersexo que ainda não têm apoio, nem real consentimento informado sobre os seus corpos, que pensam que não existem mais pessoas intersexo e que têm que viver isoladas e escondidas.

A nível, institucional, a comunidade LGBTI+ ficou desapoiada financeiramente durante a pandemia, prevendo-se ainda uma extensão desse desapoio para o próximo ano, particularmente para as comunidades trans e intersexo. 

 

Irás participar em algum evento LGBTI+ (presencial ou online) este ano ou em breve? Num ano tão importante para a comunidade LGBTI+, em que se celebram 52 anos da revolta de Stonewall em Nova Iorque, que mensagem gostaria de deixar para assinalar este acontecimento?

Actualmente, a Ação Pela Identidade - API, está na fase final dum projecto financiado pelo POISE, que tem como produto um manual de apoio a profissionais de jornalismo, comunicação e média sobre os tópicos LGBTI+. No entretanto, na nossa página de Facebook temos publicados dois episódios da nossa mini web série de 5 episódios, intitulada: ANTI - lab (que desmistifica as fobias contra a população LGBTI+) e até Setembro saem mais 3 episódios. Ainda serão também anunciados workshops formativos para profissionais da área. 

Nos 52 anos da revolta do Stonewall, os exemplos de Marsha e Sylvia tocam-me profundamente, quando em 2015 me tornei o primeiro intersexo visível em Portugal. A repercussão do movimento LGBTI+, foi negativa, a maioria das pessoas virou-se contra mim, contra a organização que co-fundei já em 2011 e isso fez com que quisesse desistir imensas vezes, (e em vez de um role model empoderado), fiquei vulnerável aqueles que não querem que haja visibilidade intersexo, consequentemente sofrendo assim a comunidade LGBTI+ toda. Quando uma liderança visível, que traz a mudança é celebrada, como nós portugueses fazemos aos pares dos EUA e do Brasil, toda a comunidade ganha com isso - se fazemos o oposto perdemos colectivamente. Acho que em Portugal podíamos começar a celebrar as figuras de liderança LGBTI+ no seu espectro, destacando pessoas negras, pessoas trans e pessoas intersexo.

Em Portugal podíamos começar a celebrar as figuras de liderança LGBTI+ no seu espectro, destacando pessoas negras, pessoas trans e pessoas intersexo.

Se praticarmos empatia, compreensão e desenvolvermos um olhar crítico sobre os problemas, focando-nos na interseccionalidade dentro da nossa comunidade LGBTI+ podemos concluir que a interajuda partida de nós para nós pode inequivocamente trazer a mudança necessária, e assim corrigir as lições que nos foram dadas da Revolta de Stonewall, há 52 anos atrás.

 

 

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