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Gay trintão solteiro crónica

      Como esta é a crónica número 19, achei que esta semana era a ocasião ideal para celebrar o primeiro aniversário da minha primeira desilusão depois de ter ficado solteiro.

Desilusão essa que teve o seu ‘desfecho’ (que, invariavelmente não foi bem um desfecho) na Praia 19. Ainda não tinha escrito acerca deste episódio, mas como as duas últimas crónicas foram em registo de flashback, decidi continuar com a temática e recuar até Julho/Agosto do ano passado e partilhar convosco a história do ‘Fantasma do Verão Passado’.

    Inicialmente, a história com este rapaz parecia quase uma versão do ‘Fado da Sina’ da Hermínia Silva destinada a terminar bem, mas claro que acabou por ser mais uma ‘afeição mal contida que foi uma ilusão’ (quem não conhece o Fado da Sina que o vá ouvir porque, mal comparado, é como se fosse o ‘I Will Survive’ da mana trágica portuguesa).

    Comecei a falar com este rapaz uns anos depois de eu e o meu ex termos aberto a relação e a ideia era termos combinado um sex-date, mas as coisas acabaram por não acontecer nessa altura. Porque invariavelmente coordenar disponibilidades entre duas pessoas com horários de merda é quase sempre uma missão impossível.

    No entanto, no mesmo ano em que começámos a falar, ‘reeeeeeezou-me a sina nas linhas traçadas na palma da mão’ que nos cruzássemos sem combinar no Pride: eu do lado de fora a assistir, e ele no carro do local de trabalho. No meio daquele mar de gente, de alguma forma conseguimos reconhecer-nos e falar casualmente pela primeira vez ao vivo durante uns segundos e combinámos voltar a tentar encontrar-nos. Voltou a não acontecer e, entretanto, perdemos contacto.

    Três anos mais tarde, já estava eu solteiro e quase a mudar de cidade, reencontrámo-nos numa app e retomámos contacto. Ele, entretanto, também tinha ficado solteiro e finalmente conseguimos encontrar-nos. Seria um eufemismo eu dizer que valeu a pena esperar porque quando finalmente nos encontrámos foi um daqueles momentos em que não é preciso dizer nada. Começámos a ver-nos todas as semanas, mas sempre com aquela contagem decrescente de eu estar prestes a ir-me embora. Ainda assim, as coisas até pareciam bem encaminhadas: ele mencionou várias vezes que já andava há muito tempo a querer mudar-se para Lisboa e que agora parecia que lhe tinha aparecido a razão que faltava para dar esse passo. Do nosso último encontro antes de eu ter vido embora (que eu só viria a saber semanas mais tarde que era a última vez que iriamos ter algum género de intimidade) ainda guardo a imagem daquele cabelo e daquela barba com uma cor que era uma mistura perfeita de várias cores, a descansar em cima do meu peito, num daqueles abraços silenciosos em que ninguém precisa de dizer nada porque o conforto do silêncio diz tudo.

 

...um daqueles abraços silenciosos em que ninguém precisa de dizer nada porque o conforto do silêncio diz tudo.

 

    Entretanto, eu vim para Lisboa e ficou combinada uma visita e continuámos em contacto. Da minha parte, aquele momento que descrevi ficou em ‘Pausa’ e pronto para voltar a ‘Play’ assim que nos víssemos novamente. No entanto, nas poucas semanas que passaram eu comecei a notar que o tom das mensagens começou a mudar. Uma parte minha começou a pensar ‘cheira-me a mortos!’, mas outra parte pensou que eu estava a exagerar e por isso decidi levar as coisas normalmente e esperar até ele vir a Lisboa. 

    Chega o Dia D da visita.

    Não exagero quando digo que abri a porta um bloco de gelo com cerca de 1.70m de altura e uns 60kg de peso que me deu o abraço mais circunstancial e impessoal da minha vida. Tentei normalizar a situação o melhor que consegui e ser agradável, mas as coisas não foram além duma conversa forçada de circunstância e eventualmente apercebi-me que estava diante de mais uma sub-espécie da fauna homossexual masculina: o hobosexual. Passo a explicar: hobo é uma palavra do calão inglês para “sem-abrigo”, hobosexual é aquele gay que só se lembra de nós quando precisa de um sítio para ficar e, neste caso, ele precisava de um sítio para matar tempo até poder fazer o check-in… that!

    Foi lixado e senti-me completamente na merda porque vi desaparecer à minha frente não uma fantasia que eu tinha criado na minha cabeça, mas semanas de uma experiência que efetivamente parecia querer caminhar para algo significativo. Ele ficou 10 dias em Lisboa, mal respondeu às minhas poucas tentativas de contacto depois daquele balde de água fria. Poucas porque eu percebi que as coisas tinham mudado, mas tentei que, pelo menos, fossemos tomar um copo e tentar colocar um ponto final civilizado no que quer que tenha sido aquilo que tivemos antes. Eu não queria cobranças nem recriminar ninguém. Só queria ‘closure’, mas claro que nesta altura já devem ter percebido que não se tratava de uma pessoa com maturidade suficiente para ma dar.

    Eventualmente, e uns dias antes de ele ir embora, cruzámo-nos na 19 (no areal, ressalve-se) e finalmente houve uma conversa em pessoa. Não vou criar suspense e vou já dizer que foi uma conversa de sala de espera. Em todo o caso, terminei com ‘Já vais embora daqui a pouco, não é? Faz boa viagem e olha, até um dia!’, a querer sair dali o mais depressa possível. Mas não. 

    Depois de tudo, ainda teve a lata de tentar fazer mais conversa de circunstância a dizer que tinha ido a Cascais e tinha sido muito giro, etc., e de me dizer ‘Eu só vou embora depois de amanhã, escreve-me, entretanto, e vamos falando!’. (Remeto eventuais novos leitores para a minha crónica: “A praga da frase ‘Vamos Falando’”.)

    O vosso R. J. Ripley respira fundo e responde calmamente ‘Vou estar ocupado. Fica bem.’ dei-lhe um abracinho de ‘Passa bem’, e fui-me embora.

    No fundo, esta situação acabou por ser um prefácio para o meu actual estado civil, o qual eu decidi submeter a um ‘rebranding’. Achei que ‘solteiro’ é demasiado comum e, como tal, decidi começar a dizer que o meu estado civil é: “actualmente entrevistando candidatos ao título de Desapontamento do Próximo Trimestre”.

 

R. J. Ripley

 

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