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Sobre a violência às pessoas LGBTI+ em Portugal

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  1. É a primeira Primavera que passo em Lisboa. É o ano de 2009, tenho 19 anos. Depois de passar o serão no Bairro Alto com amigos, regressamos a casa de táxi. Como somos vizinhos, vamos juntos. Pelo caminho, conversamos, rimos, na imaturidade bonita da idade que temos. Um deles fala do rapaz de quem gosta, fala dos planos que tem para o conquistar. O outro dá-me a mão. Não me diz, mas gosta de mim. Eu ainda não tinha percebido se gostava dele ou não. O senhor do táxi segue em silêncio, cumprindo com a rota que lhe pedimos: uma primeira paragem para eles saírem e uma segunda para mim. Chegamos à Praça Paiva Couceiro, é ali que eles ficam. Despedimo-nos com beijos e abraços e promessas de estarmos juntos no dia seguinte. Eles saem e eu sigo viagem, para a Avenida Afonso III, ali bem perto. Depois disso não me recordo bem do que aconteceu. Sozinho no táxi, o condutor começa a falar comigo. Lembro-me do tom ameaçador, das insinuações, dos insultos. E do medo, do cheiro do medo. Não lhe respondo, não olho para ele. Pela janela, vejo como as casas da avenida passam por mim e pergunto-me como irei sair daquele carro. Peço-lhe que pare o táxi. Ele pára. Mas mantém um discurso de intimidação. Eu pago e saio. Não sei como, não sei porquê, não corro. Entro na primeira rua que vejo e caminho o suficiente para me afastar do táxi. Não caminho mais rápido nem mais lentamente. Caminho, simplesmente. Ainda temi que ele viesse atrás de mim. Mas não. Seguiu o seu caminho, com os seus insultos, com as suas ameaças, com as suas insinuações. E depois de eu dar algumas voltas no bairro, depois de esperar, sempre alerta, regresso à avenida em que ele me deixou, confirmo que já não há perigo e faço o caminho que eu planeara fazer antes daquele episódio. Inconsciência, teimosia da minha parte? Não sei. Entro em casa e tranco a porta.

Sozinho no táxi, o condutor começa a falar comigo. Lembro-me do tom ameaçador, das insinuações, dos insultos. E do medo, do cheiro do medo.

  1. É Verão. É o ano de 2014, tenho 24 anos. Sento-me no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, num banquinho mesmo em frente de onde, anos depois, viria a ser colocado o memorial de homenagem às vítimas de LGBTIfobia em Portugal. Sento-me ali para ficar perto do cedro de que gosto tanto, com aquele perfume que é uma outra pele para mim. Visto-me de flores, uma camisa de seda dos anos 90, que comprei em segunda mão. Gosto de comprar coisas antigas, únicas. Abro um livro, de poesia. Trago sempre livros comigo, são os meus livros de oração. E fico a ler. Por vezes levanto a cabeça e espreito as pessoas que passam por ali: há quem passeie cães, há crianças a brincar, há casais de namorados, há gente a caminhar sozinha, há velhos a jogar às cartas. Inspiro o ar lavado pelo cedro e regresso aos poemas. Creio que estava a ler Fiama Hasse de Pais Brandão, li-a muito naquele jardim. Levanto novamente a cabeça, aproxima-se um cão. Atrás dele, uma criança a correr e uma mulher de cabelos brancos. O cão olha para mim, mas não se interessa muito. A criança nem nota a minha presença, corre atrás do cão. Mas a mulher olha-me. E depois de passar por mim, próxima o suficiente para que eu ouvisse, mas sem me olhar de frente, diz, Paneleiro. Fico a observá-la a afastar-se, ao encontro da criança a correr e do cão. Dentro de mim, uma casa vazia. Fecho o livro, levanto-me e vou-me embora. Sei que o perfume do cedro dançava à minha volta. Mas eu já não o sentia.

Mas a mulher olha-me. E depois de passar por mim, próxima o suficiente para que eu ouvisse, mas sem me olhar de frente, diz, Paneleiro

  1. É Outono. É o ano de 2018, tenho 28 anos. Falta um mês para o Natal. Um amigo e eu regressamos a casa depois de jantarmos no novo vegetariano da cidade. Ficámos a conversar quase até à hora de fecho e, depois disso, ainda caminhámos sob as luzes com que Lisboa se enfeita nestes dias. Lisboa é bonita em Dezembro, diz-me recorrentemente uma amiga… Caminhámos, conversámos, caminhámos. Até que nos apercebemos das horas e apanhámos o último metro para o Campo Grande. E é do Campo Grande que caminhamos até casa, para a Quinta das Conchas, Lumiar. Vamos na Alameda das Linhas de Torres. A noite está fria, mas as iluminações de Natal dão algum conforto, algum calor. Levo um sobretudo e, ao pescoço, uma écharpe enrolada, branca, estampada com formas geométricas em azul e preto. Parece-se com o padrão de alguns azulejos — gosto muito de azulejos. Estamos a passar o Hospital Pulido Valente, já falta pouco até casa. Não me recordo sobre o que conversamos. Penso na Maria, a amiga que gosta de Lisboa em Dezembro e que mora logo ali. Lembro-me que, no dia seguinte, ela e eu vamos a Cascais, ver o farol e o mar. O meu amigo continua a falar, nem repara que me ausentei dali por momentos. Dizem que quem é do signo Peixes é assim, que se ausenta, que submerge. Quanto a mim é uma forma de visitar lugares… Regresso. Reparo num grupo de rapazes a correr na nossa direcção. Os rapazes ainda estão longe, acompanho-os com o olhar enquanto se aproximam. Fico alerta, já não escuto o que me diz o meu amigo. O grupo está cada vez mais próximo, noto que alguns deles olham para nós. Esforço-me para tomar atenção ao meu amigo e digo a mim próprio que está tudo bem. Uma inutilidade, para ser franco, pois o estado de alerta mantém-se. O grupo passa por nós, a correr. São uns cinco, seis. Escuto a palavra matilha dentro da minha cabeça. Por associação também penso nas palavras predador e presa. Entre eles, trocam frases soltas. Bófia, fugir. Percebo pouco. Mas quando um dos rapazes, ao passar por nós, diz aos amigos, São gays! Bate!, fico lívido. Não paro de caminhar. Eles também não param de correr, percebo que se afastam. Talvez tenha ouvido mal, penso. Não olho para trás. Pergunto-me se o meu amigo ouviu também. Ele continua a falar-me como se nada tivesse acontecido, mas mais à frente confirmo. Sim, ele também ouviu. Estamos à porta do meu prédio e conversamos. Falamos do medo e da violência. E eu falo-lhe de vivermos num lugar de privilégio por só nos confrontarmos com episódios destes pontualmente, enquanto há irm@s noss@s imers@s num clima de medo diário, enfrentando verdadeiras políticas de terror. Falo-lhe da notícia que li em que uma mulher com cancro, no Brasil, foi agredida na rua por ter sido confundida com um transexual, e enquanto lhe conto isso penso na Gisberta, transexual mutilada e assassinada no Porto por adolescentes — a Gisberta sempre vem à minha memória para me dar força e coragem. Falo-lhe do medo que sinto, do medo da violência, enquanto penso na minha mãe quando me diz para ter cuidado e sei que, por trás daquelas palavras, está o medo pela minha integridade física. Falo-lhe da urgência de denunciar a violência latente, física e não física, assim como o discurso de ódio, visibilizando o medo que sentimos e parando de silenciar ou ignorar os insultos e as agressões de que a comunidade LGBTI+ é alvo, para que haja consciência de que ainda existem cidad@s portugues@s com medo de serem quem são, mesmo que haja leis que nos protegem, salvaguardando as nossas liberdades individuais. Falo-lhe do cansaço de ter de estar constantemente a reivindicar um lugar no espaço público, para me tornar visível, descolonizado das formas-pensamento do heteropatriarcado sobre mim e íntegro com a minha natureza. Falo-lhe da raiva e da revolta por perceber como a minha paz e o meu espaço ainda são invadidos e perturbados, quando eu quero apenas viver a minha vida. Falo-lhe do feminismo e do ecofeminismo e da minha certeza de que é nesse espaço que me sinto seguro. Falo-lhe do amor e de como o amor nos humaniza. E ele ouve-me, sorri e dá-me um reflexo de coragem e segurança. Dá-me um reflexo de esperança, onde também me revejo. E sinto alguma paz, apesar do episódio que acabamos de viver. E sinto que o mundo só muda se fizermos alguma coisa. E sinto que tenho de escrever sobre o que vivi, para dizer a quem me conhece e a quem me lê que eu e a minha comunidade LGBTI+ não somos vítimas sem nome convertidas nos números das estatísticas, somos pessoas reais, com vidas reais, com histórias reais, com famílias, com trabalhos, com pessoas que nos amam e que amamos, com sonhos, prazeres, desejos, que ninguém tem o poder de eliminar. E enquanto decido que juntarei o meu testemunho às outras vozes de denúncia, despeço-me do meu amigo com um abraço e peço-lhe que me avise quando chegar a casa. Ele segue caminho, eu entro no meu prédio. E as lágrimas caem mal fecho a porta, enquanto as luzes de Natal brilham lá fora.

Mas quando um dos rapazes, ao passar por nós, diz aos amigos, São gays! Bate!, fico lívido. Não paro de caminhar. Eles também não param de correr

 

Artigo de Samuel F. Pimenta (escritor)

 

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