No passado dia 2 de Junho, a propósito do assassinato de Conceição Figueiredo, em Oliveira do Bairro, a amada dos portugueses, Cristina Ferreira, mete os pés pelas mãos, afirmando no programa matinal da TVI, Dois às 10, que a vítima de tão brutal assassinato se "havia posto a jeito". E eu pergunto, Cristina Ferreira, a jeito de quê???
Estou a caminho de fazer 46 anos. Por vezes, dou por mim a pensar na sorte que as gerações que vieram depois de mim tiveram, ou, pelo menos, assim o espero. Os jovens de 20 e 30 anos tiveram pais que já não cresceram num país fechado, com um enorme peso cultural nascido duma ditadura que durou 41 anos. Tiveram já acesso à Internet, a uma globalização da cultura, a uma sociedade, embora ainda renitente, mais aberta, inclusiva, acolhedora. Cresceram, e crescem, com uma série de referências à identidade queer na literatura, no cinema, nos meios de comunicação social. Alegro-me por isso, muito...
Recordo-me da angústia que sentia na minha adolescência por não conhecer ninguém LGBT, de me sentir a única lésbica da escola ou da aldeia onde nasci. Felizmente, apanhei ainda nessa fase o início da massificação da Internet e o surgimento de plataformas de conversa, como as salas de chat (IRC, 1995). Posteriormente, surgiram as aplicações de encontros, como o Tinder (2012), mais popular e generalista, ou as apps voltadas para a comunidade LGBT, como o Grindr (2009) e o Her (2013). Estas plataformas abriram, para mim e para muita gente, uma janela para um mundo de diversidade. Actualmente, são uma das principais formas de conhecer novas pessoas.
Fui um dos filhos de Abril de 1974 e nunca pensei chegar o dia em que visse uma força política de extrema-direita ter uma votação tão superior à dos partidos de esquerda. Ontem, 18 de Maio, foi um dia triste para a democracia. Ontem fui um dia extremamente aziago para mim, alguém que desde novo luta por uma sociedade justa e equalitária.
Não há forma simpática de dizer isto: o resultado das Eleições de ontem foi péssimo. Sei que é justamente o que não querem ouvir neste momento. Mas é a realidade e quanto mais depressa aceitarmos isso, mais depressa reagimos.
Viver fora da norma dominante é, muitas vezes, caminhar sobre o fio da navalha. Para muitas pessoas LGBTQIA+, esse fio não é apenas simbólico — é real, cortante e diário. E corta mais fundo quando os discursos políticos e religiosos, em vez de promoverem acolhimento, alimentam estigmas que adoecem, isolam e ferem.
Assinala-se hoje o Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia — uma data que relembra, ano após ano, a importância de existir, resistir e continuar a lutar pelos direitos da comunidade LGBTQIA+. A escolha do 17 de Maio não é aleatória: foi neste dia, em 1990, que a homossexualidade deixou oficialmente de ser considerada uma doença pela Organização Mundial da Saúde. Um marco simbólico, sim, mas também um lembrete de que o caminho da dignidade continua a ser construído.
O género, como definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é:
“as características das mulheres, homens, raparigas e rapazes que são socialmente construídas. Isto inclui normas, comportamentos e papéis associados a ser mulher, homem, rapariga ou rapaz, bem como relações entre si. Como construção social, o género varia de sociedade para sociedade e pode mudar ao longo do tempo. (…) O género interage, mas é diferente do sexo, que se refere às diferentes características biológicas e fisiológicas das mulheres, dos homens e das pessoas intersexo, como os cromossomas, as hormonas e os órgãos reprodutivos. O género e o sexo estão relacionados, mas são diferentes da identidade de género. (Fonte: OMS, 2025)
A cada ciclo eleitoral, assola-me uma inquietação persistente: como pode uma pessoa queer votar num partido que nega os seus direitos mais elementares? A pergunta não surge com escárnio, mas com uma preocupação fraterna — um olhar de dentro para dentro.
Durante muito tempo fomos ensinados a acreditar que o amor só podia existir dentro de um molde muito específico: duas pessoas, exclusividade sexual e emocional, para sempre. Mas quem vive fora da norma — seja em identidade, orientação, corpo ou forma de amar — sabe que nem sempre esse modelo encaixa. E está tudo bem com isso.
O BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) refere-se a um conjunto de práticas em que os participantes assumem papéis opostos, dominador(a) ou submisso(a), de acordo com as suas preferências, e pode envolver dor, jogos eróticos e acessórios como coleiras, algemas, cordas e dildos. As interacções baseiam-se no princípio do consentimento mútuo, claro e contínuo.
O próximo dia 18 de Maio não será apenas mais uma data eleitoral. Será um marco. Um momento crucial em que seremos chamados a decidir o futuro do país, e com ele, o futuro das nossas vidas. Para a comunidade LGBTQIA+, para as mulheres, para as pessoas racializadas, com deficiência, imigrantes e tantas outras vozes historicamente silenciadas, o voto é mais do que um direito: é um instrumento vital de resistência, de afirmação e de esperança.
É com grande perplexidade que vejo amigues LGBT a partilharem a energia igualitária do Papa Francisco post mortem. Papa Francisco foi sem dúvida o mais próximo que tivemos de uma voz da igreja católica menos opressora, o que saúdo, não respeito. Ser menos opressor não significa não ser opressor, ou seja, não significa de facto a base opressora da sua índole católica inquiridora e julgadora pronta a meter na forca de qualquer pelourinho mundial uma “bicha” assumida.
Vivemos num tempo em que a verdade está constantemente a ser desafiada. Num clique, somos expostos a opiniões, "factos", imagens e vídeos — muitos deles falsos ou manipulados. Para a comunidade LGBTQIA+, já alvo de preconceito e exclusão social, a desinformação pode ter efeitos ainda mais graves na auto-estima, saúde mental e sensação de segurança.
De cada vez que oiço palavras baratas e sujas sobre a imigração, choca-me a falta de sensibilidade e empatia da população portuguesa. Na verdade, a nossa comunidade emigrante é bastante expressiva, principalmente às portas de cidades como Paris, Londres, Luxemburgo, etc.
Trabalhar diariamente com pessoas com deficiência dá-me uma perspectiva privilegiada sobre as suas dificuldades e desafios, e um dos temas que raramente vejo discutido é a intersecção entre deficiência e identidade LGBTIQA+. Enquanto psicóloga, compreendo que cada identidade traz consigo um conjunto único de experiências, e quando essas identidades se sobrepõem, as dificuldades podem ser amplificadas.
Estávamos no verão de 90, de uma vila desenhada, exactamente no meio do nada. Os pedais da bicicleta avançam num sorriso por descobrir. Se não tivesses esse teu jeito, até eras giro. Disse a Teresa sobre os trejeitos da bicicleta dele. A bicicleta não percebeu o que é que aquilo queria dizer. Antes do Verão terminar, Ele guardou-a na garagem. Ele tinha ouvido os rapazes da escola dizerem que lhe iam tirar a bicicleta. Vamos tirar-te a bicicleta. Disseram eles. Vamos tirar-te a bicicleta. As rodas rodavam à velocidade da roda do sol. Os pés adolescentes fundiam-se nos pedais, como se o seu corpo fizesse parte desse instrumento de fugir com duas rodas.
Numa conversa acesa com um colega de trabalho, percebi que há pessoas que consideram o direito de rir mais importante do que o direito de um grupo existir em paz.