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“Transformar hoje para ter voz amanhã!” - A 3ª edição da Marcha de Viseu pelos Direitos LGBTI

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No passado Domingo, dia 11 de Outubro, realizou-se a 3ª edição da Marcha de Viseu pelos Direitos LGBTI+. Num ano pandémico que veio trazer dificuldades à participação cidadã em espaços públicos, adiando grande parte das marchas LGBTI+ em Portugal para um tempo indeterminado, a 3a Marcha de Viseu pondo constrangimentos e descrenças quanto à sua realização de parte, mostrou-se revelar-se um sucesso.

 

Organizada pela Plataforma Já Marchavas, contando com o apoio de duas dezenas de colectivos que assinaram o seu Manifesto e com cerca de 200 pessoas a participar naquele momento, mostrou ser uma lufada de esperança ao movimento cívico em prol dos direitos LGBTI+ no país. Uma marcha que se afirma Feminista, Ecologista, Antifascista, Antirracista, Democrática, Inclusiva e Participativa, contou com o apoio de diferentes coletivos de diferentes pontos do país. De Amarante a Setúbal, fizeram-se presentes o PortugalGay, Porto Inclusive, SOS Racismo, Greve Climática Estudantil, Feminismos Sobre Rodas, assim como alguns partidos políticos como o PAN e o Bloco de Esquerda, e as deputadas Fabíola Cardoso e Sandra Cunha, que relembram a importância do movimento cívico nos tempos em que vivemos de ataque da extrema direita à democracia portuguesa.

Fotos da 3ª Marcha pelos Direitos LGBTI de Viseu 11-10-2020 📸 © Já Marchavas

Publicado por dezanove em Segunda-feira, 12 de outubro de 2020

 

Diferentemente de outros anos, os moldes desta marcha, fizeram-se cumprir pelas recomendações da Direção Geral da Saúde, no qual o distanciamento social foi assegurado de forma estratégica a cumprir os 2 metros de distância entre os presentes, assim como o uso de máscara e do já acessório álcool gel durante o percurso da marcha. Ainda que com certo desconforto das regras de higiene adoptadas, o momento foi de alegria, de partilha e solidariedade, fazendo-se ecoar nas ruas de Viseu motes de luta: “Assim se vê, a força LGBT”, “Sai do Passeio e Vem para o nosso meio”, em tons de canto assim se denunciavam os tempos difíceis que se vivem para as consideradas “minorias” sociais, afastadas do privilégio de classe, sexo, ou etnia, não se deixaram esconder neste momento.

Um momento que foi palco de surpresas. Surpresas positivas e também as tiveram as menos positivas. No percurso final da Marcha, aquando já perto da Praça do Rossio, local onde há precisamente 15 anos, a 25 de Maio de 2005, se fez a primeira Manifestação STOP Homofobia fora de Lisboa, onde se concentraram cerca de trezentas pessoas, partidos políticos e colectivos numa demonstração de repúdio contra os ataques violentos e massacrantes contra a comunidade LGBTI que um gangue de 20 viseenses perseguia e que as forças polícias ignoravam existir naqueles anos, fizeram-se voltar a ouvir comentários depreciativos contra a manifestação política que se fazia na rua. Ordenando em tom jucoso a todos os que faziam da marcha um momento pacífico e de luta, gritavam: “Vão trabalhar”, “Isto é uma vergonha”, entre outros comentários que espelhavam o ainda grande conservadorismo da cidade viseense que, por ironia, se continua a intitular como melhor cidade para se viver em Portugal.

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Momentos como o descrito em cima não são novos em Viseu. Recordemos que em 2018, aquando a edição da primeira Marcha de Viseu pelos Direitos LGBTI+, foram encontrados cartazes explícitos ao discurso de ódio e homofobia, destacando a cidade de Viseu como a cidade para se viver “sem vocês”, referindo-se directamente à comunidade LGBTI+. Ou ainda a perseguição camarária à organização da Marcha de Viseu pela colagem de cartazes em património municipal, ainda que sem provas deste delito, ao invés de reconhecer as necessidades da comunidade LGBTI+ viseense e das suas famílias, começando por se fazer presente em momentos de cidadania colectiva como foi o da 3a edição da Marcha LGBTI+ de Viseu.

É verdade que nos últimos anos foram muitas as mudanças positivas no caminho LGBTI+. É verdade que as leis em Portugal são mais inclusivas. É verdade também que existe uma maior visibilidade da comunidade LGBTI+ no país. Hoje é possível aceder a direitos civis como o casamento e a adopção independentemente da orientação sexual, vejam só. Temos uma Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, uma série de organizações sem fins lucrativos que se dedicam ao trabalho da comunidade LGBTI+ e das suas necessidades, temos, imaginem só, o direito de sair à rua e em conjunto contestar pelos actos de discriminação que se continuam a repercutir num país de bons-costumes, num país que não se esquece de ser fascista, racista ou machista. Querem mais o quê? Já não tem direitos suficientes? Querem mais direitos que as pessoas “normais”, ouve-se perguntar invariáveis vezes pelos que se dizem não ser homofóbicos, machistas ou racistas, mas… sempre um mas.

Querem mais o quê? Já não tem direitos suficientes? Querem mais direitos que as pessoas “normais”, ouve-se perguntar invariáveis vezes pelos que se dizem não ser homofóbicos, machistas ou racistas, mas… sempre um mas.

Quisemos, queremos e continuaremos a querer reconhecimento, voz e direitos enquanto estes não existirem. Enquanto as convenções sociais teimarem a colocar estereótipos e rótulos na identidade das pessoas, no seu género ou orientação sexual. Enquanto continuar a existir desinformação nas escolas sobre temas como a sexualidade e cidadania e não for atribuído um sistema de ensino inclusivo e paritário para todos, onde a família do aluno possa ser mais que a tradicional família binária-cisgénero, pai e mãe. Enquanto continuar a existir medo e vergonha em casa, onde tantos jovens tem dificuldade em fazerem o seu coming out, dizendo quem são às famílias, por reprovação do conservadorismo dos pais. Enquanto existirem impedimentos às terapias hormonais e à mudança de sexo aos que nasceram num corpo errado. Enquanto frases como “os paneleiros hadém de morrer”, enquanto a violência e o preconceito existirem continuaremos a lutar, continuaremos a ocupar as ruas com as cores do arco-íris e marchar, porque o movimento LGBTI+ não é estanque, não é uma realidade fixa mas sim plural, tal como a sociedade é diverso e com ela evolui, surgindo novas necessidades que devemos atentar, porque não estamos sós.

No dia 11 de Outubro de 2020 Viseu saiu à rua, fez-se ouvir e sentir.  Não esteve só. Relembrou com orgulho que aqui existe um arco-íris e que continuará a existir por muitas as dificuldades existam.

 

Daniel Santos Morais

Fotos e vídeo: Já Marchavas

 

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